Capítulo 13 (parte três)
Sábado, 25 de junho de 2022
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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Alberto Pérez oferece um sorriso amargo quando é perguntando onde estava quando soube da morte de Diego Maradona.
“Aqui”, responde, apontando com o indicador para o chão.
É o mesmo local onde está na conversa com o autor: Lascano, 2257, Ciudad Autonoma de Buenos Aires. La Casa de D10S, a primeira residência própria da família Maradona, conseguida com a ajuda do Argentinos Juniors, clube onde então atuava. A 500 metros do estádio que hoje leva o nome do camisa 10. A equipe que deixou em 1981 para atuar pelo Boca Juniors.
Pérez era secretário da agremiação. Maradona foi a seu casamento, em 1979. Fizeram viagens juntos mas, como aconteceu a todas as pessoas que foram próximas a ele, depois se afastaram.
“Falávamos mais por telefone. Há muito tempo que não o via pessoalmente, mas sabia que não estava bem”, recorda.
Isso faz sofrer o advogado que tinha o sonho de comprar aquela casa para que ela servisse à comunidade da Paternal. Desejava transformá-la, como aconteceu, em um museu.
“Me dava muita pena quando o escutava falar. Estava claro que não estava bem e não sei se os outros percebiam aquilo.”
Alberto Pérez é mais um que repete não ter se surpreendido com a morte de Maradona, embora diga ter sido uma tristeza avassaladora. Compara à espera pela notícia fatal ao romance de Gabriel García Márquez sobre o assassinato de Santiago Nasar pelos irmãos Vicario: Crônica de uma morte anunciada.
Nem mesmo o que, para Pérez, o diferenciava de Pelé ou Messi seria capaz de mantê-lo vivo por muito mais tempo. A capacidade de protagonizar reviravoltas na própria vida. Ele confessa que ter a percepção disso era torturante.
“Diego renasceu das cinzas algumas vezes. Mas afinal, chegou ao limite.”
Ele começa a fazer tour pela casa. Sobe as escadas. Mostra a janela na parede usada por Maradona para pular e cair dentro da cama. Os objetos de colecionador que adquiriu no decorrer dos anos e espalhou pelos cômodos. É orgulhoso que tudo é idêntico, assegura, ao final dos anos 1970, quando o ídolo morou com os pais e os irmãos.
“Dalma escreveu aqui”, diz, ao apontar para um rabisco na parede.
Ela esteve alguns meses antes com a equipe que produzia documentário sobre a vida do pai. Passou horas revisitando todos os aposentos e escutando Pérez recitar as histórias de quando a permanência de Maradona no futebol argentino era questão de estado para a ditadura militar. Isso evitou que fosse vendido para a Juventus de Turim. Os dirigentes italianos simplesmente não conseguiram obter uma resposta para a proposta financeira apresentada. Desistiram.
Pérez acalentou por anos o desejo de adquirir a casa e transformá-la em um centro cultural no bairro. Presidente da Comissão da Junta da Paternal, ele comenta a ânsia que tinha de devolver algo à comunidade com a imagem do jogador. Quando Maradona assinou seu primeiro contrato profissional, em 1976, o advogado já era secretário-geral. Ele é mais um da longa lista de pessoas que passaram pela vida do Dez, teve contato próximo, mas depois se afastou.
É outro que lamenta essa distância. Durante longo tempo, sentiu a urgência de fazer algo, pelo medo de que o imóvel poderia ser demolido de uma hora para a outra.
Ele descobriu em 2008 ser possível comprá-lo porque a proprietária estava com problemas financeiros. Mas a situação era tão caótica que a casa havia sido dada como garantia em cinco empréstimos diferentes.
“Eu não tinha dinheiro”, constata Pérez.
Para afastar esse pensamento, resolveu fazer uma última análise na documentação. Quem sabe não haveria uma brecha? Havia.
“As hipotecas estavam expiradas. Não cabiam mais reclamações. Corri e fiz uma oferta a ela pelo valor de mercado: US$ 100 mil. Fechamos negócio.”
São cinco mil itens em exibição. Naquele mesmo ano da compra, Maradona foi à casa pela última vez. Visitou-a ao lado de Vitor Hugo Morales. Chorou copiosamente ao entrar naquele que foi seu quarto. Apesar de dizer e mostrar o quanto estava emocionado, nunca mais voltou. Isso está dentro do padrão de suas atitudes no decorrer dos anos. Ele dizia adorar e ansiar pelo reencontro com o passado, mas isso ia apenas até certo ponto.
“Diego absorveu todo o carinho das pessoas. Ele era um clube que cada vez tinha mais torcedores. Todos eram Maradona. Era uma personalidade que você poderia concordar ou não, mas não poderia deixar de perceber estar sempre do lado mais fraco. A partida para ele nunca acabava após 90 minutos. O carisma que tinha permitia que dissesse o que pensava para o Papa, por exemplo, contra a riqueza do Vaticano. Ele atira contra a Fifa. Estar sempre do lado do mais fraco fez com que o povo tivesse esse carinho por ele, por ser a voz dos que não têm voz”, constata Pérez.
Também há gratidão do advogado e de torcedores do Argentinos Juniors por Maradona. Os motivos foram alheios à vontade do próprio jogador, mas ficou na Paternal por cinco anos. Hoje em dia, isso seria algo impensável. Abriu mão dos seus 15% da transferência para o Boca Juniors e Barcelona, o que garantiu que a equipe formadora recebesse uma porcentagem.
“Isso o engrandece muito porque há jogadores, como Fernando Redondo, que foi um grande, mas errou conosco. O gerente do clube cometeu um erro, não lhe enviou um telegrama sobre a prorrogação do contrato, ele ficou livre indevidamente e foi jogar pelo Tenerife, na Espanha. O Argentinos não recebeu nem mesmo um peso”, explica.
Isso poderia ter acontecido também com o volante Esteban Cambiasso, profissionalizado na Paternal em 1995. No ano seguinte, foi para o Real Madrid sem que o time de origem ganhasse nada. Na época, ele era um garoto de 16 anos e já havia a regra de indenização para times formadores. Pérez ligou para Mauricio Macri, então presidente do Boca Juniors, e pediu um favor: poderia mandar um documento oficial do clube xeneize oferecendo US$ 1,5 milhão por Cambiasso?
Macri, que depois seria prefeito de Buenos Aires e presidente da República, assentiu. Com essa “comprovação”, o Argentinos Juniors foi à Fifa e alegou prejuízo de US$ 1,5 milhão. O Real Madrid teve de pagar esse valor.
Alberto Pérez acredita que uma parte da idolatria de todas as torcidas por Maradona passa também pelo fato dele ter aparecido na equipe da Paternal, apesar do amor sempre declarado ao Boca.
“Se ele nascesse em La Bombonera, haveria uma divisão e metade do país não gostaria dele. Mas nasceu em um clube simpático, pequeno, fundado por socialistas e anarquistas. Isso por si só já é curioso porque no início do século XX, em 1904, não era comum que anarquistas fomentassem futebol. Para eles, isso era como pão e circo.”
Diego Maradona saiu da Paternal em uma negociação que o Boca Juniors quitou US$ 4 milhões e se comprometeu a pagar o mesmo valor em quatro parcelas de US$ 1 milhão cada. Isso não aconteceu. A economia nacional, como se repetiria tantas vezes, quebrou e o dólar disparou frente ao peso. O comprador pediu para as prestações serem reduzidas para US$ 500 mil. A alegação é que o valor doa moeda norte-americana era bem diferente daquele em fevereiro, quando a transação foi concluída.
“Isso é algo que no Direito se chama de teoria da imprecisão”, diz Pérez.
O Boca foi a um juiz, solicitou o reajuste do contrato e abriu um processo contra o Argentinos Juniors.
“O magistrado era meu amigo e fui argumentar com ele que aquilo era um remédio para maus negócios. Seria injusto. Um Picasso tem cotação internacional e esta deve ser respeitada. Maradona era um Picasso.”
Foi quando apareceu Jorge Cyrterzpiler acompanhado pelo empresário catalão Josep María Minguella. Eles disseram a Josep Lluís Núñez, o interminável presidente do Barcelona (1978-2000), que seria possível comprar Maradona pagando também uma indenização ao Boca. Mas os vendedores eram o time da Paternal.
O saldo para o Argentinos Juniors seria de US$ 700 mil em sete prestações de US$ 100 mil ou sete amistosos a serem disputados no exterior. Nenhuma das duas coisas se tornou realidade. Como aconteceria em outras situações, o presidente da AFA, Julio Grondona, não tomou partido do seu filiado.
“Contratamos o escritório Hernández Gil e entramos com processo para que nos pagassem. O presidente da liga espanhola ligou para Grondona. Ele me telefonou para avisar que deveríamos retirar a ação ou o Argentinos poderia ser proibido de disputar torneios na Argentina e a AFA seria intimada a nos desfiliar.”
Alberto Pérez está preocupado em que todos os detalhes para o lançamento do livro de Olguín estejam a contento. Mas se dá ao trabalho de mostrar, pelos 40 minutos seguintes, todos os detalhes da casa. Explica os quadros, os documentos guardados, como foram conseguidos. Procura uma biografia de Francisco Conejo, o treinador de Diego no Cebollitas, equipe de base ligada ao Argentinos Juniors. Não encontra. Mostra imagem de Diego ao lado de Menotti no Mundial sub-20 em 1979.
O autor testa um argumento. Apesar da polêmica, não foi melhor ele não ter sido chamado para a Copa de 1978 e, assim, evitar ter a imagem ligada de alguma forma à ditadura militar?
Alberto Pérez pensa por um segundo.
“Era algo que poderia aparecer depois porque, naquela época, Maradona não era um ser político. Essa foi uma formação que aconteceu aos poucos.”
“O que Maradona pensaria disso? Afinal, ele é o futebol argentino.”
“Não creio que se deve aceitar que uma pessoa fale por outra. Mas quem diz, como você, que Diego é o futebol argentino, não está totalmente certo. Diego Maradona é, na verdade, a essência da Argentina.”
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O capítulo 14 será publicada em 17 de abril.
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