Capítulo 11 (parte um)
Segunda-feira, 30 de novembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
*
As camisas com a imagem de Maradona na Lavalle, no centro de Buenos Aires, não deveriam chamar minha atenção. Eram várias. Mas aquela era diferente por algum motivo. A cor creme fazia a imagem dele, com a camisa azul da Argentina, se destacar. Arrancava com a bola, em uma lembrança do segundo gol sobre os ingleses. Não era possível saber se aquela foto específica era do lance histórico.
Parecia. Eu não poderia esperar ficar tanto tempo a observar algo na vitrine e não ser abordado por um vendedor.
“Quer experimentar?”
Eu ouvia aquela pergunta todas as vezes que parava diante de uma loja.
Sempre dizia não.
“Quero, sim.”
Logo abaixo de Maradona, estava escrito “barrilete cósmico”.
Atrás havia trecho da histórica narração, a mais famosa da história do futebol sul-americano. Se fosse em inglês, a tal língua universal, seria a mais conhecida do planeta.
“Eu sei de cor”, disse, orgulhoso, o vendedor, ao apontar para as costas da camisa. Ele não tinha mais de 20 anos. Havia uma senhora no fundo da loja. Talvez sua mãe.
Sem que eu pedisse, começou a recitar.
“Barrilete cósmico, de qué planeta viniste para dejar em el caminho tanto inglês? Para que el país sea um puño apertado gritando por Argentina. Gracias Dios por el fútbol, por Maradona, por estas lágrimas. Por este Argentina 2, Inglaterra 0.”
O rapaz terminou inflamado, como se fosse ele mesmo o autor da narração, e não Victor Hugo Morales, o icônico radialista uruguaio radicado em Buenos Aires.
Eu não sabia o que fazer. Talvez ele esperasse por palmas.
“Bravo”, disse, ensaiando um sorriso de aprovação. “Tem vendido muitas camisas como essa?”
“Bastante. Temos outras, mas essa é a minha preferida. Quer ver modelos diferentes?”
“Não, obrigado. Acho que você nunca viu Maradona jogar.”
“Claro que não. Assisti os vídeos apenas. Mas o vi em campo. Estava em La Bombonera quando o Boca foi campeão em março. A entrada dele foi emocionante. Muita gente chorou. Não sei a palavra certa, mas havia eletricidade no ar. Algo que apenas Diego poderia fazer”, tentou explicar.
Era uma boa hora para me apropriar da definição de Ezequiel Fernandez Moores.
“Diego era mais que o futebol. Ele era um movimento.”
Meu novo amigo pareceu feliz com meu pensamento roubado.
“É isso. Um movimento.”
Com o canto de olho, vi que a mãe do rapaz fazia um sinal com os braços, como quem diz “e aí?”. Talvez ele gastasse muito tempo a conversar comigo em horário de trabalho. Mesmo que eu fosse o único cliente dentro da loja.
“Vai querer levar? Se fosse você, levaria. É muito bonita”, estimulou.
“Sim, vou comprar.”
*
Sentado na cafeteria da sede do canal C5N, Vitor Hugo Morales cruza as pernas e ajeita o cabelo com a parte interna as duas mãos. Quase com o punho. Os fios tão cinzentos que parecem prateados não estão desalinhados. Mesmo assim, ele insiste. Alisa mais uma vez para se certificar. Também se preocupa em não amarrotar demais o terno porque poucos minutos depois estará ao vivo no seu programa La Hora de Victor Hugo. Perguntado pelo seu produtor se quer beber algo, avisa desejar um chá.
“Vai ser vídeo ou áudio?”, quer saber.
“Vou gravar a conversa, mas será para um texto escrito”
“Ah...”
Ele parece ficar mais relaxado com a informação. Talvez por acreditar que a conversa pode ser informal. A poucos metros, duas emissoras de rádio esperam para ouvi-lo. Naqueles dias, ele tem sido uma das pessoas mais procuradas da Argentina por causa de Diego Maradona.
Morales parece ter um senso de destino. Em 1976, em Montevidéu, sua terra natal, pediu para acompanhar o Defensor no campeonato uruguaio daquela temporada. A ideia foi questionada por vários colegas e o próprio radialista confessa não saber por que tomara tal decisão. Por causa dela, presenciou todos os jogos de uma das maiores epopeias da história do futebol sul-americano. No meio da ditadura civil-militar em vigência no país, o Defensor foi campeão uruguaio com um técnico filiado ao Partido Comunista, jogadores ligados a sindicatos e um garoto que fez um gol vital para a conquista, contra o Nacional, em sua estreia como profissional, o dedicou ao irmão, preso político do regime, e teve de se esconder por ser procurado pela polícia. Nunca mais entrou em campo.
“Vitor foi o único jornalista a acreditar em nós”, lembra, mais de quatro décadas depois, Julio Fillipini, o então menino de 19 anos que teve de abandonar o futebol e se tornou contador na prefeitura de Montevidéu.
Após atravessar o Rio da Prata e ter se tornado um dos mais importantes narradores esportivos na Argentina, condição que manteve pelos 40 anos seguintes, Morales se posicionou contra o que acreditou ser uma campanha injusta de grande parte da imprensa contra a seleção de Carlos Bilardo na Copa de 1986. O título foi mais uma prova de que soube se posicionar como testemunha da história. Enquanto outros jornalistas tiveram de fazer malabarismos verbais para transformar as críticas em elogios quando a equipe se aproximou do título, Morales ouviu o treinador chamá-lo ao vivo em sua rádio, no vestiário do Estádio Azteca, após a vitória sobre a Alemanha, apenas para agradecê-lo pelo apoio irrestrito.
Na insolúvel grieta do futebol no país, poucos são tão bilardistas quanto Vitor Hugo Morales. E quase ninguém é tão anti menotista quanto ele.
Isso lhe rendeu polêmica, mas prestígio. No hall de entrada da C5N, em um prédio moderno na rua Olleros, região que pode ser Palermo Hollywood, Colegiales ou Chacarita, a foto de Morales é uma de mais destaque entre os apresentadores do canal.
Em uma emissora mais identificada com o kirchenismo e com a esquerda na política, ele encontrou sua casa. Nos anos 1990 deu uma guinada de 180 graus. De um dos mais ferozes críticos do então presidente Néstor Kirchner, virou um dos seus mais árduos defensores. Recebeu prêmios jornalísticos que depois devolveu porque eram de organizações alinhadas com a oposição. Quando Mauricio Macri assumiu a presidência da Argentina, o radialista foi demitido da Rádio Continental, onde trabalhou por 30 anos. É uma característica da imprensa radiofônica do país. As ondas viajam de acordo com a corrente ideológica dominante.
A imprensa o procura sem parar porque ele se tornou uma das lembranças mais presentes de Maradona. Apresentou dois programas de TV em Copas do Mundo ao lado dele. Não apenas isso, sua maior narração aconteceu no ápice de Diego: o segundo gol contra os ingleses em 1986. Morales fez entrar no imaginário do torcedor argentino expressões como “barrilete cósmico” e a pergunta “de que planeta viniste?”
As palavras que o vendedor da Lavalle sabia recitar de cor. A narração perfeita do gol perfeito.
Embora tenha se tornado cronista político e social com o passar dos anos, um mal que aflige muitos jornalistas com tempo demais no ar para dizerem o que lhes vêm à mente, Victor Hugo Morales nunca se descolou do futebol. Mesmo que quisesse, seria impossível. Veloz, de dicção perfeita e capaz de alegorias para descrever momentos capitais, ele é uma versão argentina-uruguaia de Osmar Santos, mas de jeito diferente. O brasileiro costumava tombar para o humor, a galhofa, os apelidos. O uruguaio prefere o poético, o heroico, o épico. Tudo o que representava Maradona com a bola no pé tinha seu correspondente em Morales com o microfone na mão.
O narrador e apresentador de então 73 anos havia acabado de almoçar quando soube de ambulâncias em frente a mansão onde estava Diego. Pressentiu o pior. Ligou a televisão e sentou no sofá apreensivo, a esperar pela notícia que não desejava. Esta chegou minutos depois.
“Caí em um poço de tristeza”, afirma.
Por mais de uma hora, não teve reação nenhuma. Ficou quieto, sem falar com ninguém, a tentar atinar os pensamentos. Era o meio da tarde quando se ergueu, trocou de roupa e foi para a sede da C5N. Executivos do canal se preocuparam que ele não teria condições emocionais de conduzir seu programa. Às 18h, estava no ar para lamentar, ao vivo e para milhões de pessoas, o seu luto pela morte do ídolo argentino.
“Eu tenho sorte que meu trabalho é este. Eu pude fazer a minha catarse. Pude vir até aqui, falar de Diego e chorar por Diego. Porque quando aconteceu, por algum tempo depois, fiquei incrédulo, sem reação. Ao vir para o estúdio e falar dele, era como se estivesse vivo. Navegamos como passageiros dessa dor. A pena, aos poucos, dá lugar à nostalgia.”
Morales para por um segundo para sorver o chá. A funcionária da cantina lhe pergunta se quer comer algo. Ele acena que não.
“Eu sento aqui, começo a pensar em Diego e sinto a necessidade de falar sobre ele. Falo com você e revivo Diego.”
Não são poucos os jornalistas argentinos ou italianos que devem pelo menos parte da carreira a Maradona. Seja pela amizade, pelas entrevistas, declarações memoráveis ou tudo isso junto. Seu amigo Gianni Mina teve preferência nas entrevistas nos tempos de Napoli, mesmo quando outras emissoras acreditavam que deveriam ser as escolhidas. Adrián Paenza, do canal 13 argentino, recebeu a primazia da palavra do craque caído após ter sido flagrado no doping em 1994.
O apoio público à seleção de 1986 e a narração do segundo gol contra a Inglaterra fizeram com que Morales caísse para sempre nas graças de Diego, mesmo que não costumassem se ver. Trocavam mensagens de vez em quando. O último encontro cara a cara aconteceu na Rússia, na última gravação do “La mano del Diez”.
De vez em quando Maradona lhe mandava um WhatsApp ou SMS, o radialista respondia, havia réplica, depois a tréplica e acabava a conversa. Morales ficava satisfeito. Considerava prova de carinho. Quatro anos antes, em 2014, eles também compartilharam um estúdio diariamente, mas no Brasil, durante o Mundial. Era o “De Zurda”.
Não se deve ir ao encontro de Victor Hugo Morales para falar sobre Maradona e esperar que o veterano narrador fale sobre os defeitos ou erros do seu amigo. O máximo que ele se permite é confessar o receio que sentiu ao ser convidado para dividir a bancada com ele. Teve medo de conhecer o ídolo de perto e descobrir que ele era um tipo insuportável. Um ogro, para repetir a expressão usada pelo jornalista.
“Diego era um pão de Deus. Quando não era agredido, era tão bom que dava pena. Dos 35 dias que estivemos juntos no Brasil, convivemos com uma equipe de 35 ou 40 pessoas. Gente que a todo momento lhe pedia algo para um tio, primo ou para eles mesmos. Autógrafo em uma camisa, num papel, um telefonema para a sobrinha, mandar saudação para a tia Júlia que fazia aniversário... Ele pegava o celular, gravava uma mensagem, mandava beijo. Alguém que tem tanta atenção assim com as pessoas até na maneira como dá autógrafos e como tratou desconhecidos não pode ser ruim. Foram 40 funcionários que nunca o viram irritado ou aborrecido. Ao mesmo tempo, era muito dolorido ver este homem hospedado em um hotel em frente à praia mais linda do mundo, na Barra da Tijuca, sem poder colocar os pés na areia porque jamais teve um minuto para si mesmo.”
As imagens de como Diego “não tinha vida” (para usar a expressão de Morales) ficaram em sua mente. Como vê-lo se trancar no banheiro apenas para ficar sozinho e em silêncio por alguns minutos. Ou quando fez reserva em um restaurante para que Maradona saísse do quarto e tivesse uma refeição em paz, cercado apenas por amigos e sem ser incomodado a todo instante. O astro não queria ir, achava que não daria certo. Victor Hugo teve de insistir até convencê-lo. No meio do jantar, o ex-jogador
disse ser aquela sua refeição preferida durante a estadia no Rio de Janeiro porque podia comer abrindo os braços. Almoçava e jantava no seu quarto todos os dias com outros oito integrantes da produção que iam lhe fazer companhia.
A lembrança que Victor Hugo jamais esquecerá aconteceu em Moscou, quando um grupo de dez pessoas dividiu um assado na capital russa. Foi quando o narrador viu o barrilete cósmico em sua melhor forma.
“Foram três horas de um stand up de Diego. Contou suas anedotas, suas histórias, nos fez rir e nos fez chorar. Foi inesquecível. Ele estava muito relaxado, feliz e fora de qualquer polêmica. É a recordação que mais gosto dele e uma que sempre me vem à cabeça porque o vejo muito vivo, humano, frágil, forte, gracioso. Tudo o que cabe em um ser humano.”
Victor Hugo é prova do código de lealdade, que podia ser dúbio às vezes, com o qual Diego conduzia sua vida. Aos que ele considerava amigo e leal, era capaz de tudo. Como na noite em que estava em um restaurante de Moscou fechado apenas para pessoas autorizadas pela Fifa. O argentino estava lá por ser quem era, claro, mas também por fazer parte do programa Legends, da entidade dona do futebol. O radialista queria lhe falar e entrou no local ao vê-lo, sem ser autorizado. Um funcionário se aproximou e pediu que saísse. A reação de Maradona foi igual a outras que teve no decorrer da vida. Se o seu amigo Morales não poderia ficar lá, ele tampouco. Levantou-se e foi embora.
Algo parecido havia acontecido em 2006, durante a Copa do Mundo da Alemanha. Convidado pela organização do torneio e por patrocinadores, foi aos jogos da seleção argentina seguido por uma entourage. Um integrante do grupo, com mais jeito de barra brava que de torcedor comum, começou a arranjar confusão com outros convidados. Ao chegar no Estádio Olímpico de Berlim para as quartas de final contra os donos da casa, Diego recebeu o aviso ao tentar entrar no estádio. Ele era bem-vindo. Seu amigo, não. Recusou-se a entrar.
Em troca de gestos como esse, ele queria lealdade. Como quando disse ser inaceitável ser traído por sua mulher, mesmo se ele fosse infiel. Isso pode explicar a revolta e inimizade com Claudia Villafañe depois dela ser fotografada em um iate com um namorado meses após se divorciar de Maradona.
Victor Hugo Morales teve experiência parecida com a de outras pessoas ouvidas para este livro, inclusive jogadores que atuaram ao lado de Diego. Era possível conviver diariamente com ele por um curto ou longo período de tempo e sentir não conhecê-lo de verdade. Como se sempre alguma faceta nova aparecesse de repente.
“Em meia-hora, como acontece a outros, poderia mudar. Ele era um personagem e a contradição para essas pessoas surge quando são agredidas”, constata o radialista e apresentador.
O radialista faz uma pausa como se não estivesse satisfeito com a própria explicação. Algo falta. É um silêncio com faceta dramática, talvez proposital, como o ator que espera pela deixa para um pensamento final.
“Eu diria o seguinte: a situação em que Diego vivia era impossível. Era a maior fama que conheci. Há famas que acontecem dentro de uma bolha. Pode ser no futebol, pode ser no cinema, mas fora dessa bolha as pessoas deixam de ser importantes para muita gente. Diego era importante em todas as bolhas. Pagou muito por ser um personagem que transcendeu o futebol”, disse e pareceu ter ficado satisfeito com o complemento.
Morales em seguida começa a contar história que presenciou no Mundial do Brasil, mas já contada em diferentes ocasiões e lugares por outras pessoas que foram do convívio de Maradona. Ele sai do banheiro, abre a porta e havia três ou quatro fotógrafos na porta, a esperá-lo.
“Muchachos, acá no! Por favor!”
“Esta era a vida de Diego Maradona”, prossegue Victor Hugo. “Era isso o que me dava pena. Essas experiências me fizeram gostar dele ainda mais do que já gostava como jogador. Não é pela gratidão profissional ou pelo amante do futebol. É pela consideração a um ser humano muito sensível. Ele não viveu. Toda a vida de Diego foi uma tentativa de escapar dessa avalanche de afeto, mas também de interesses, dos que o rodeavam.”
Ele fica satisfeito em falar mais sobre o homem Maradona do que sobre todos os outros Maradonas: o craque, o mito, o campeão do mundo, o ídolo nacional. Não concorda com a afirmação de que ele é o argentino mais importante da história. Cita conquistas sociais proporcionadas por Perón. Fala de San Martín. Em seguida se apressa para completar não desvalorizar a importância do seu amigo e o que ele representou na vida do país.
Contrariedade maior ele mostra apenas quando é perguntado se a expressão “barrilete cósmico” de sua narração foi uma resposta a Cesar Luis Menotti.
“Sobre essa pessoa eu não falo. Não tem mais sentido. Faz muito tempo.”
Sim, era para Menotti. Os dois teriam pelos anos seguinte longa discussão, sempre pela imprensa, com idas e vindas e troca de acusações. Morales entrou com um processo de difamação contra o treinador e perdeu.
Antes do Mundial de 1986, o campeão de 1978 fazia parte da legião que criticava de maneira impiedosa o futebol mostrado pela Argentina sob o comando de Carlos Bilardo. Grande parte deste grupo queria a saída do técnico. A mudança contava com a simpatia até do presidente da República, Raúl Alfonsín. Para evitar a demissão (ou pelo menos torná-la mais difícil), o técnico levou seus jogadores para uma excursão pela Europa e Israel antes do embarque para o México. Quanto mais longe de Buenos Aires, melhor.
Em entrevista na época, Menotti colocou a Inglaterra como favorita ao título. Disse que Maradona era um “barrilete”. Uma alegoria para dizer que o camisa 10 era dado a altos e baixos. Imprevisível. Foi a comparação que ofereceu a Victor Hugo Morales munição para a narração mais famosa da história do futebol latino-americano.
O locutor já havia se reconciliado com sua obra-prima quando Diego morreu. Durante muito tempo se recusou a escutá-la. Se participava de algum programa e a gravação de sua voz descrevendo Maradona a deixar ingleses para trás era repetida, abaixava o volume. Não gostava da narração e não desejava ouvi-la novamente. Levou anos, mas enfim percebeu o quanto era especial. Quem era ele para descartá-la assim? Que excesso de vaidade era aquele para renegar o momento mais importante de sua vida profissional, o instante que representou um divisor de águas na carreira?
Victor Hugo tinha má vontade com a narração porque a considerava emocional demais. Pouco descritiva. Enquanto Diego se aproximava da área e driblava, o relator não contava o que via. Gritava apenas “gênio, gênio”. É o oposto do prazer estético que sente ao escutar sua locução do gol do mesmo Maradona contra a Grécia, em 1994. Ali, ele avalia, narrou o lance com emoção e em grande velocidade. Como se deve fazer na transmissão de rádio.
“Preocupei-me porque parecia que tinha ficado louco e não sabia o que disse. Perdi os elementos de controle que temos no cérebro e isso é perigoso. Sempre fiquei preocupado com esse gol porque a estética era demasiadamente emocional. O gol de Maradona contra a Inglaterra não tem descrição. Só emoção.”
“Por isso que emociona tanta gente. Por ser só emoção”, observou o autor.
“De acordo. Mas quando você escuta a narração e compara com a imagem, ver o gol contra os gregos e ouvir como o relatei me faz muito bem. No passado, quando via o gol de Diego, pensava: privilegiei um sentimento. Não há descrição. Eu rejeitava o gol. Acreditava ter perdido os estribos. Estava com bronca, com raiva, com admiração. Tudo junto.”
Não é novo que seleções campeãs do mundo tenham péssima relação com a imprensa.
“É para vocês, traíras!”, berrou Dunga, com a taça na mão, para os jornalistas após o Brasil ganhar em 1994.
“Sinto cheiro de esterco aqui”, disse Giancarlo Antognoni próximo a uma janela, para os repórteres o ouvirem, depois de a Itália derrotar a equipe de Telê Santana e ir às semifinais em 1982. O clima era tão hostil que uma revista do país publicou que dois integrantes do elenco tinham um relacionamento homossexual.
A Argentina de 1986 vivia um racha midiático. Boa parte da imprensa destroçava Carlos Bilardo, os jogadores e descartava qualquer chance de título no México. Porcentagem menor, da qual Victor Hugo Morales fazia parte, acreditava no time. A descrença era tamanha que nenhuma emissora de TV mandou narradores para transmitir as partidas in loco. A classificação nas eliminatórias havia sido dramática, obtida com um gol de Gareca nos minutos finais do confronto decisivo com o Peru, num lance em que todo o mérito foi de Daniel Passarella, o zagueiro que não jogaria no Mundial por causa de um até hoje não totalmente explicado problema estomacal.
O capitão de 1978 insinuou algumas vezes ter sido “sabotado”, algo que os demais integrantes da comissão técnica sempre descartaram. Lembraram que o zagueiro ignorou as ordens de não beber qualquer água na concentração argentina, cedida pelo América, que não fosse a fornecida pela AFA. Seu substituto foi José Luis Brown, defensor que, para Bilardo, era tão bom na função de líbero quanto Franco Baresi.
O caldeirão da narração de Victor Hugo Morales no gol de Maradona contra os ingleses nasceu da fúria de ver outros jornalistas argentinos torcerem abertamente contra a seleção e ficarem tristes com as vitórias. Foi uma sincronia de sensações porque Maradona sentiu o mesmo.
“Eu sabia o que havia naquele gol. A raiva, o incômodo pelo que Diego e a seleção havia passado. O jornalismo esportivo é o mais impiedoso que existe. Quando começa a perseguir uma equipe, parece existir um propósito de maldade. Eu tive a sorte de me deixar emocionar e existiram vários fatores. A Guerra das Malvinas, o clima hostil insuportável em um estádio da América Latina que torcia mais pelos ingleses do que pelos argentinos. O destrato dos jornalistas argentinos àquela equipe. E a jogada. Tudo isso foi um coquetel explosivo.”
Foi lançado em 2013, 27 anos após a partida, o livro “Barrilete cósmico: el relato completo”, com a narração na íntegra de Victor Hugo da partida. A obra está esgotada. Claro que é pelo gol de Diego, mas não apenas por isso. É por todos os demais motivos enumerados por Victor Hugo, os mesmos que fizeram o jornalista argentino Andrés Burgo publicar o monumental livro “El Partido”. Pessoas presentes no Estádio Azteca naquele dia dizem ter sido o jogo a atingir o máximo da capacidade emocional. Quem estava a favor daquela seleção não se emocionou tanto com a conquista da Copa do Mundo do que com a vitória sobre os ingleses nas quartas de final.
Além de tudo isso, havia Diego Maradona no auge.
“Diego sempre foi muito inspirador na minha vida como narrador. Seus gols eram grandes e tudo vinha precedido pela lenda dele. A literatura jornalística se enriqueceu com Diego porque ele inspirava. Nenhum outro gol teve a mesma dimensão do segundo diante dos ingleses. Eu tenho coisas ditas de Maradona, de todos os seus gols, de todos os seus passes. Todos ficaram ofuscados por esse gol. Neste mesmo Mundial ele anota um contra a Bélgica que é sublime. Mas quase não aparece. Nem está nos anais dos seus grandes gols.”
Seu produtor faz um sinal e aponta para o relógio para mostrar que estava atrasado. Victor Hugo Morales faz sinal para esperar. Levanta o copo de papel e aponta para a funcionária da cantina para pedir outro chá.
“Sobre o relato deste gol...”, continua, pela primeira vez em busca de encontrar as palavras. “...Não se pode planejar. Quando sai um gol assim, posso compor algo. Se faço isso, me arrisco a cair no ridículo porque a linha entre o ridículo e o sublime é muito fina, muito delicada. Mas eu sou de arriscar, de jogar com as palavras e com todos os elementos ao redor do gol. O que fiz certo foi dizer ter sido a jogada de todos os tempos. Foi insuperável. Para acontecer algo igual teria de ser feito na Copa do Mundo. Eu agradeço sempre a Deus por ter me dado a chance de estar lá. Posso ter me apressado à jogada, posso ter atravessado e dito coisas que não estava de acordo. Coisas que poderia ter mudado. Mas tive sorte. Eu atribuo à sorte ter podido manifestar esta emoção. O gol é emocional mais do que descritivo. Tanto que 34 anos depois estou falando sobre ele.”
Mesmo nos dias após a morte de Maradona, Victor Hugo tem brigado em favor do amigo e ídolo. Fala de debates televisivos em que esteve presente em emissoras do exterior, como a americana Univision, dedicada ao público latino. Foi obrigado a defender o legado do jogador contra o que definiu como “intelectuais” que não entendem a mentalidade do povo e, por isso, a importância de Diego Maradona lhes era inalcançável. A não percepção e a indiferença com a herança deixada por Diego irritava profundamente o apresentador.
“Apenas os insensíveis não percebem, algum intelectual muito estúpido que aparece de vez em quando e não sei por que se diz intelectual. Quem lhe deu esse título? Esses personagens querem minimizar Maradona, o futebol e o povo. Perguntam se era para tanta comoção por ser alguém que jogava bola. Como se fosse absurdo que sua morte pudesse causar tanta tristeza. Essa gente ficou fora do sentimento coletivo de um pesar tão grande como poucas vezes se viu.”
É mais um momento em que o veterano narrador precisa de um empurrão para discursar, irritado, mas sem aparentar. Sua voz de trovão não muda a entonação. Não precisaria ser modulada se fosse uma gravação. É ao contrário de quando grita “por Deus, quero chorar” enquanto Diego corria para a lateral do campo e comemorava o segundo gol. O aborrecimento se mostra nas palavras. Ele diz considerar normal falar sobre os defeitos de Maradona. Mas não nos termos que aqueles definidos por ele como “intelectuais” querem.
“Há questões sobre a briga com Claudia, como tratou algumas mulheres no passado, não ter reconhecido filhos…”
Morales para e pensa por um segundo.
“Recebi nos últimos dias mensagens de mulheres que diziam como Diego foi importante em suas vidas pela conexão que criaram com os pais ou como ele a fez serem felizes em momentos difíceis. Claro que ele tinha defeitos. Mas o que fazemos com eles? Não os mencionamos, não falamos mais? Não se pode. Quando a obra do homem é maior que os seus defeitos, há de se considerar o legado. De qual defeito querem falar de Diego? Está bem, falamos com gosto. Traga-me aqui uma pessoa sem defeitos. Onde está? O papa? Tampouco. Não se salva nem o papa. Podemos dizer coisas que o destruiriam. Quando percorremos este caminho, se a obra é maior que os defeitos, eu fico com a obra. Aborrece-me o intelectual que não se dá conta da importância de Diego porque não ama o futebol. Como ele não se dá conta disso, deixa de ser intelectual. É apenas um estúpido. Quer falar de Bolívar? Falemos dos defeitos de Bolívar. Vamos precisar de muito tempo para isso. O mesmo para Che Guevara, para Fidel. Churchill aparece às vezes como um velho muito difícil, em algumas etapas vinculado ao pior de Londres enquanto construía sua carreira. Mas o anulamos por isso ou o tomamos como um homem importantíssimo na história?”
O produtor se cansa de fazer sinalizações à distância e se aproxima. Ele tem outros jornalistas para conversar e, mais importante do que isso, um programa para apresentar em pouco tempo. Ele sinaliza que entendeu.
Ainda cabe mais uma observação travestida de pergunta. A de que ele tem amissão de cuidar do legado de Diego da mesma forma que assegurou o jantar em paz pelo menos por uma noite no Rio de Janeiro durante a Copa de 2014. A voz da narração imortal sorri. Esta comparação o satisfez.
Victor Hugo Morales se levanta e ajusta o terno antes de ir embora.
“Sabe de uma coisa? Os jornalistas se aproximavam de Diego sempre em busca da grande matéria. E a grande matéria, para vários deles, é a que dá repercussão, não a que tem valor de verdade. O que Maradona sentia comigo, quando fazíamos os programas, era que eu cuidava para que ele não se colocasse em polêmica. Se ele tem tanto a dar, tanto a contar, tantas histórias e anedotas, por que vou perguntar sobre pessoas que eu sabia que ele não gostava? Um repórter falava com Maradona por uma hora e apenas a uma pergunta ele respondia mal. Era esta que aparecia no título do jornal. Se você pergunta a mim o que levei dessa relação de afeto, eu ofereci-lhe querer bem. Nunca tirar dele algo para mim.”
“Ele ficaria feliz com isso, acho.”
“Isso é o que quero fazer sempre que necessário. Necessário não sou nunca, mas sou alguém que tem uma pequena história a contar sobre Maradona e é uma história que honra o amor de que Diego ofereceu a milhões de pessoas.”
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A segunda parte do capítulo 11 será publicado em 24 de fevereiro.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com

