Capítulo 13 (parte dois)
Sábado, 25 de junho de 2022
Todo o material deste substack é livre. Não é preciso pagar nenhuma assinatura. Se você não está familiarizado com esta plataforma e aparecer pedido para assinar, basta selecionar a opção gratuita e seguir adiante.
Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
O texto é em copyleft, então se você achar que ele vale alguma coisa, pode determinar o valor que quiser e fazer um pix para sabinoalex1975@gmail.com
Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
*
Não era uma final. Sequer o jogo era decisivo, mas Diego Maradona comtinuava acordado. A madrugada avançava em Roma e a partida seria horas depois. Ele saiu do quarto e bateu à porta de Fernando Signorini.
“Não consigo dormir. Podemos conversar?”
O seu preparador físico espantou o sono e atendeu ao amigo, como todos faziam quando o pedido era do 10. Diego não entrou. Em vez disso, sentou no chão do corredor. Signorini fez o mesmo. Dois policiais responsáveis pela segurança do andar onde estava o elenco do Napoli, observavam de longe, espantados com aquela cena.
Ele não estava barbeado, o que para Fernando não era bom sinal. Isso fazia parte da mística de Maradona. Algumas pessoas próximas sempre consideraram uma bobagem a história de que se ele estivesse com a barba por fazer, significava que algo estava errado. Signorini, não. Ele acreditava naquilo. Por isso, sentou também.
Começaram a conversar sobre nada em particular. Uma charla banal às 3 horas da manhã na Itália.
Diego de repente começou a falar sobre a saúde dos pais. Do medo que sentia de que algo lhes acontecesse. Relembrou os anos em Villa Fiorito, do pai quase caindo de sono em cima do prato de sopa depois de passar o dia esmagando ossos na fábrica. Das noites em que dona Tota não jantou e mentia para os filhos estar sem fome, assim eles teriam o que comer.
“Antes de os meus pais morrerem, prefiro que eu morra”, disse Maradona, cabeça baixa, olhando para o chão.
“Você é um cagão.”
A frase tirou Diego do quase torpor.
“Como?”
“Você é um cagão”, repetiu Signorini.
“Por quê?
“Porque a lei natural da vida é que os pais se vão e os filhos ficam. Você não deveria desejar morrer antes em nenhuma hipótese porque é um destino brutal para um pai e para uma mãe serem obrigados a enterrar um filho.”
Quase 30 anos depois desse diálogo, Fernando Signorini subiu os degraus com passos decididos. Não queria perder um tempo que era precioso, tinha certeza. Bateu à porta do apartamento na avenida del Libertador apenas uma vez e ela foi aberta por Rocio Oliva.
“Que bom ter vindo, profe. Diego vai ficar feliz”, ela lhe disse.
Signorini, hoje em dia, não sabe dizer há quanto tempo não o encontrava. Mais de dois anos, talvez. Não ficou nervoso ou emocionado porque não seria algo de sua personalidade. Estava ali para encontrar Diego. O mesmo Diego de sempre.
Na sala estava Hector Enrique, aquele que havia “dado o passe”, como ele mesmo brinca, para o gol do século. A porta do quarto estava fechada e Fernando escutou Oliva a abrir e dizer: “Diego, profe está aqui.”
Maradona tinha certo prazer em deixar as visitas esperando, como a colocá-las em situação de inferioridade quando se encontrassem, mas daquela vez apareceu segundos depois. Foi até Signorin, deu-lhe abraço e um beijo.
“Estava pensando em você hoje, seu filho da puta.”
A lembrança que Maradona tinha era dos dois sentados no corredor do hotel em Roma e Fernando o chamando de “cagão.”
Foi a última vez que os amigos de mais de 40 anos se encontraram.
Além de preparador físico, ele foi durante muito tempo o apoio emocional de Diego Maradona. Não gostaria que fosse definido assim mas costumava contraiar o amigo como forma de adestrá-lo sobre como deveria sentir. Como fez em Roma.
Isso de novo aconteceu no túnel do estádio Olímpico, novamente na capital italiana, após a derrota para a então Alemanha Ocidental na final da Copa do Mundo de 1990. Signorini viu Maradona a caminhar para o vestiário. Andava e chorava. Enxugava as lágrimas na camisa azul, considerada o uniforme de azar da seleção.
“Para que essas lágrimas?”, questionou em tom firme, não compreensivo com quem havia acabado de perder a chance de ser mais uma vez campeão mundial.
Diego não conseguiu responder nada.
“Pare com isso! Vá abraçar aqueles que sempre te bancaram e agora estão tristes.”
Fernando Signorini detesta Carlos Bilardo e apenas trabalhou com as seleções em 1986 e 1990 por causa de Maradona. Considera o técnico adepto de um futebol da era das cavernas. Ou Pedro Picapiedra, como dizem na Argentina. Mas reconhece que a Argentina, com os quatro titulares que não puderam atuar na decisão, teria vencido. Cannigia, Olarticoechea, Giusti e Batista estavam suspensos ou lesionados.
“A Argentina de 1990 foi a pior seleção da história do país. Chegou à final porque Diego quis, com a força da sua personalidade. É incrível que ele tenha conseguido influir como influiu no desempenho dos companheiros. Mas, ao mesmo tempo, aquela Copa não teve nenhuma equipe que mereceu vencer.”
Os amigos de Signorini estavam preocupado por ele ter marcado a conversa com o autor em um domingo, em café a poucos metros do cemitério da Recoleta.
“Fernando não enxerga direito. Tente acompanhá-lo”, foi o pedido.
O apelido dele para vários amigos, inclusive Maradona, era “cego”. Mas ele insistiu em chegar sozinho, de metrô, e ir embora da mesma forma. Apesar dos repetidos pedidos, quis e manteve assim a decisão de se deslocar sem companhia naquela tarde em Buenos Aires, capital da América do Sul.
“Eu gosto dessa definição. Acho que ela é perfeita, embora às vezes ele tenha usado isso para justificar algumas coisas que não deveria”, afirmou, citando a frase de que “com Diego, iria até o fim do mundo, mas com Maradona, não daria um passo.”
Sombra de Diego, o preparador físico que o acompanhou no Barcelona, Napoli, Sevilla e seleção argentina nas Copas de 1986, 1990, 1994 e 2010. Muitas vezes um bombeiro da vida de Maradona, afastou-se da vida dele nos anos finais. Isso ficou mais evidente quando não o seguiu aos Emirados Árabes. Embora saiba que o homem que deu sentido ao seu trabalho terminou a vida cercado de pessoas suspeitas e longe de quem o amava, não culpa o “entorno”. Responsabiliza o próprio Maradona. Acredita que se ele acabou quase sequestrado por gente até poucos anos antes desconhecida, foi porque quis.
Isso leva a uma das perguntas que mais o irritam: por que não tentou fazer algo para fazer Maradona se afastar dessas pessoas?
“Quem sou eu para determinar com quem alguém deve ter amizade?”
Signorini, por experiência própria, para o bem e para o mal, sabia que a vontade de Diego era impossível de contrariar. Quando queria algo, ignorava todos os conselhos e opiniões. Se tinha um objetivo que chamasse sua atenção, não dava atenção a qualquer prognóstico. A nenhum vício.
“A capacidade que ele tinha de se concentrar em uma meta era algo inacreditável”, constata.
A conversa sobre vontades leva à deprimente entrada de Maradona no estádio do Gimnasia, a última vez que pisou em um campo de futebol e foi embora antes do intervalo. Fernando viu tudo pela televisão e se lembra de telefonar para um amigo e comentar as imagens.
“Ele não dura mais um mês”, vaticinou.
Foi premonitório. A partida entre Gimnasia e Patronato aconteceu em 30 de outubro de 2020. Diego Maradona morreu 26 dias depois.
Fernando Signorini gosta de ser este personagem. Aquele capaz de ler nas entrelinhas a vida do 10, de ser o fiel escudeiro capaz de lhe dizer as verdades inconvenientes e sair tão incólume quanto possível. Uma grande prova disso foi ter se recusado a acompanhá-lo a Dubai porque achava não ter sido valorizado financeiramente. Estar ao lado de Diego poderia ser um estilo de vida, mas não resumia a existência do preparador físico. Como é capaz de criticá-lo sem medo, todos os elogios que faz ganham legitimidade. Ele não é um bajulador, era um amigo de verdade. É esta, pelo menos, a imagem que deseja passar.
“Uma vez comentei com Guillermo Blanco como Diego aprendia rápido. Era algo natural, dele mesmo. Filtrava o conceito e entendia a estratégia. Aprendeu a falar italiano muito mais rápido do que todos nós. Dizem que é um tipo de inteligência de astúcia, se é que isso existe. Um instinto animal que, quando tem de tomar decisões em frações de segundo, age de imediato e sem que nada passe pelo cérebro. Não há tempo para processar nada.”
Ele para, dá gole em um dos seis cafés que tomou nas três horas que concedeu ao autor na Recoleta, antes de continuar.
“Sabe por que ele era assim? Porque todos os dias, quando criança, tinha de inventar o que fazer para conseguir comer ou como ter uma bola para jogar. A Diego encantavam todos os esportes. Sabia de memória todos os jogadores das principais equipes da NBA, conhecia o nome de muitos jogadores de futebol americano. Era algo que lhe encantava. Eu dizia: ‘mas como carajo você sabe essas coisas?’. Ele explicava os jogos e me falava: ‘não me venha com essa conversa de que não gosta.’ Era um tipo conectado com tudo o que acontecia.”
Entender diferentes modalidades significava também que ele, de alguma forma, adquiria noções de como praticá-las apenas usando o poder da observação. Na mítica estadia no rancho El Marito, na preparação para a Copa de 1994, Signorini o levava à tarde para o povoado de Santa Rosa. Havia um ginásio de boxe que pertencia a um velho conhecido do preparador físico. Era Miguel Ángel Campano, ex-campeão nacional. O aposentado boxeador ficou em êxtase com a possibilidade de receber Maradona.
O meia-atacante colocou as luvas e fez exercícios de condicionamento usados no boxe. Praticou sombra, pushball, bateu no saco de areia e pulou cordas. Campano o convidou para subir ao ringue e brincar de boxe por alguns minutos.
“Menos mal que o nenê tenha se dedicado ao futebol. Se fosse para o boxe, encheria minha cara de socos”, observou o antigo atleta, assombrado com a destreza e noção de espaço de alguém que jamais tinha sido lutador.
O rancho El Marito era fazenda onde se criava cavalos puro sangue. Quando Maradona pediu ajuda para entrar em forma para aquele que seria seu último mundial, Signorini sabia o que fazer. Era primordial afastá-lo de tudo. Seria impossível deixá-lo em qualquer lugar nos arredores de Buenos Aires. A incômoda presença de jornalistas, curiosos e “amigos” seria insuportável. Um circo. Ou usando a palavra que Diego Latorre colocaria anos depois no léxico do futebol argentino, um cabaré.
Na província de La Pampa, Santa Rosa fica a 615 quilômetros da capital. El Marito era ainda 40 quilômetros mais distante. Da porteira da fazenda até a casa, mais 2.000 metros. Havia árvores, animais e nada mais. Ficaram hospedados Diego, Claudia, don Chitoro e Signorini. Ao chegar, Diego se animou com o tamanho da residência e subiu aos quartos. Todo mobiliário era muito simples. Abriu o chuveiro e não veio água quente. Só havia um aparelho de TV. Ele o ligou e não funcionava direito. O jogador escancarou a janela, olhou para Signorini, que estava embaixo e gritou, de punho cerrado.
“Para onde você me trouxe, cego filho da puta?”
O preparador físico respondeu com apenas uma palavra.
“Fiorito!”
Era uma mensagem quase cinematográfica, de filmes de superação. Para Diego Maradona voltar a ser Diego Maradona em campo, teria de retornar às origens. Ele não disse mais de uma vez que sentia falta de como tudo era simples em Villa Fiorito? Então…
Ele imediatamente entendeu o que Signorini dizia. Continuou a reclamar, especialmente da TV. Mas nunca falou em parar tudo em ir embora.
Carregar Diego de volta para Fiorito era uma meia verdade. Não era aquele o único motivo para levá-lo a El Marito. Era uma garantia de que Diego estaria afastado das drogas. Quem estava ao redor também teve de mostrar força.
“Eu o vi ter crises de abstinência. Foi muito difícil. Mas a força que demonstrou foi notável.”
Os treinos de Rocky Balboa no ambiente rural eram intercalados por passeios e mais atividades em Santa Rosa, o mais próximo que tinham da civilização. Em uma dessas idas à cidade, Maradona visitou uma escola local. As crianças foram abraçá-lo, pediram autógrafos. No caminho da saída, parou uma caminhonete com caçadores na caçamba. Eles encostaram os rifles e ficaram boquiabertos.
“Diego! Eu estou bêbado ou é você mesmo?”, berrou o motorista.
“Não sei se está bêbado, mas sou eu.”
Já estava em cena Daniel Cerrini. Um fisiculturista (flagrado no doping em uma competição em São Paulo) dono de academia que entrou na vida de Maradona de maneira que não é consensual. A versão mais aceita é que chegou ao 10 por meio da família do então presidente Carlos Menem. Mas há também quem diga que ele era personal trainer da mulher de Sergio Goycoechea, que o apresentou a Claudia Villafañe.
Cerrini era dono da academia New Age, em Belgrano, próximo ao apartamento de Maradona na Avenida del Libertador.
“Ele andava ao lado de Diego com uma caixa de comprimidos, cada um de uma cor. Parecia um arco-íris. Pedi aos médicos da AFA analisarem o que era. Não queria correr nenhum risco e Maradona aceitou isso. Mas depois fomos com a seleção para Áustria, Croácia, Israel e ele não estava sempre com a gente. Eu fiquei muito preocupado”, relembra Signorini.
Ao mesmo tempo que recusa teorias conspiratórias para o doping que tirou Maradona do Mundial dos Estados Unidos, o preparador físico flerta com histórias sem nenhuma comprovação, como a lenda de que Cerrini recebeu US$ 200 mil para dopar o craque.
“Não há como saber. Mas seria possível acontecer”, especula, sem nenhuma certeza.
A versão que ficou mais conhecida foi a de que Cerrini dava a Diego o suplemento alimentar Ripped Fast, mas ficou sem os comprimidos pouco antes da Copa. Foi a uma loja nos Estados Unidos e comprou um pote de Ripped Fuel, acreditando que seria a mesma coisa. Mas este continha efedrina, substância encontrada na urina do jogador.
Que um nutricionista amador e fisiculturista de passado duvidoso estivesse com a delegação argentina no Mundial e dando suplementos ao principal astro do elenco, já seria de se espantar. Que ninguém tenha forçado uma situação para saber que suplementos eram aqueles, desafia a lógica. Integrantes da comissão técnica dizem que a penteadeira no quarto de Cerrini no hotel parecia uma farmácia.
“O que você deu para ele, seu filho da puta?”, se revoltou o médico Roberto Peidró, quando explodiu a notícia do doping.
Desconfiado e a buscar uma forma de se acalmar, Signorini havia insistido para que a AFA solicitasse à Fifa um exame antidoping de surpresa antes da viagem da delegação. Para não chamar a atenção, seria em todos os convicados, não apenas em Diego. Peidró comprou todo o material, mas a ideia não foi adiante de maneira inexplicável.
A Argentina se classificou para o Mundial com Maradona em campo, na repescagem contra a Austrália. Diego teve duas atuações discretas. Graças à influência de Julio Grondona, não foram feitos exames antidoping.
“Agora só nos resta rezar”, comentou o dirigente ao ver o craque saindo do campo em Massachutets, após vitória contra a Nigéria, de mãos dadas com a enfermeira Sue Carpenter para fazer o teste de urina.
Signorini tem razão ao levantar um fato nebuloso e não explicado por Grondona até o dia da sua morte, em 2014: por que não lutou para manter Maradona na Copa? Ele não foi excluído pela Fifa. Foi retirado preventivamente da delegação pela própria AFA, como um favor do seu presidente a João Havelange. Pelos anos seguintes, Grondona ascendeu na hierarquia da entidade que governa o futebol até chegar ao cargo de vice-presidente sem saber nem dizer “buen día” em inglês.
“Quando se faz a contraprova em Dallas, o doutor Peidró vai como responsável pela AFA. Ao entrar no recinto onde se realizaria o exame, vê oito membros do comitê da Fifa. Ele vai até a mesa e vê o vidro com o nome da substância escrita. Isso viola todo o protocolo porque a pessoa que vai buscar o material não pode saber o que está indo recolher. Então, Peidró diz que de nenhuma maneira vai assinar aquela planilha porque o protocolo não havia sido respeitado e não era válido”, conta Signorini.
Por telefone, Peidró deu rápida entrevista ao autor sobre o caso. Confirmou a história contada por Signorini. Também ressaltou ter havido caso parecido com jogador espanhol na Copa de 1986 (Calderé) e a suspensão havia sido de uma partida apenas.
“Aquela contraprova não era válida. Ligaram para Grondona para contar o que acontecia e ele pediu para falar comigo. Perguntou o que estava acontecendo e contei. ‘Estamos bárbaro, Julio. O protocolo não foi respeitado. Não serve para nada.’”
Segundo Peidró, o cartola ficou em silêncio e deu resposta lacônica antes de desligar.
“Não façam nada, não falem sobre isso com ninguém porque já o mandei embora.”
Maradona teve, primeiro, uma reação colérica e depois desabou no choro incontrolável. Não parava de jurar não haver se dopado. Citava os dias com Signorini em El Marito e no quanto havia se esforçado. A sensação de injustiça foi avassaladora. Foi a origem da frase de que lhe havia “cortado as pernas.”
“Quando gritaram seu nome no jogo contra a Colômbia (em 1993), Diego deu tudo o que tinha para consegui jogar. Na primeira chance que tiveram, entregaram a cabeça dele porque não podiam suportar tanta rebeldia. Ele tinha Fidel tatuado no corpo. E se ele ganha a Copa, levanta a taça e grita ‘viva a revolução!’ dentro dos Estados Unidos?”, questiona Signorini.
Ele foi na frente do automóvel, ao lado do motorista, no carro que levou Maradona embora do hotel em Massachusetts. Deprimido, o 10 estava no banco de trás, abraçado a Claudia. O amigo sentiu a imensa necessidade de lhe dizer alguma coisa. De tentar animá-lo.
“Pare com isso, Diego. Não há motivo para você não estar na Copa daqui a quatro anos.”
Aquilo acendeu o olhar do craque.
“Você acha?”
“Claro. Por que não? Você estará com 37 anos.”
Maradona ficou calado. Mas seu humor mudou. Ele estava em boas condições físicas e teria idade para mais um Mundial. Seu último jogo como profissional aconteceu em 1997, um ano antes do torneio na França. E mesmo que tivesse insistido, sua convocação jamais teria acontecido. O técnico da seleção era seu maior desafeto no futebol: Daniel Passarella.
O preparador físico parece dividido sobre ter ou não abandonado a Diego. Ao mesmo tempo que reafirma a sua independência, o que o diferencia de outras pessoas que passaram pelo entorno do jogador, há um traço de arrependimento pelo que talvez pudesse ter feito pelo amigo. Ele afirma e repete que cada um tem o livre arbítrio para ser e fazer o que quiser na vida. Mas entre todas as pessoas que passaram pela existência de Diego Armando Maradona, poucos conheciam tanto suas fraquezas e fortalezas quanto Fernando Signorini. Ele confessa ter sido muito difícil vê-lo se destruir e com a consciência de que aquilo acontecia. Perdeu a conta das vezes em que disseram que Signorini devia deixá-lo porque se algo acontecesse, seria apontado como um dos culpados.
“Se eu o acompanhei na alta, o segui na baixa até onde foi possível. Aos poucos, fui me dando conta que, por mais esforço que fizesse, não conseguiria mudar nada. Ele não iria para o terapeuta. Se ele não tem a vontade de se ajudar, nada vai adiantar, entende?”
Aqui entramos em assunto que claramente incomoda Signorini. A percepção de que Diego estava mudando. E não pela mudança em si. Mas a quem ele atribui a responsabilidade. Quando demitiu Jorge Cyterspiller, apareceu Guillermo Coppola. Um dos chamados pela família para a cerimônia privada do enterro do ídolo. É o único momento da conversa em que o preparador físico vacila para falar. Parece tentar se conter e escolher as palavras. Sua raiva à figura do empresário é óbvia.
“O dano que Coppola fez a Diego foi tirá-lo da realidade. Tirar o Diego que veio de Fiorito, que usava chuteiras remendadas e trocá-lo por um Diego que andava de Ferrari. Claro que Maradona sabia o seu valor. Mas ele chegou a um momento em que não tinha mais controle”, explica.
E perder o controle foi um prato cheio para quem queria se aproveitar dele no ambiente caótico de Nápoles, com seu submundo repleto de figuras que, segundo um companheiro definiu para o autor, “tomaram conta de sua vida e não o deixavam respirar sozinho.”
Após 25 de novembro de 2020, Guillermo Coppola mergulhou ainda mais no papel de “guardião” das histórias divertidas de Maradona. Como ele apareceu em sua vida a partir do período no Nápoli, desafia a inteligência de qualquer ser humano médio tentar imaginar que não teve um papel relevante no sistema que envolveu Diego, com a cumplicidade do próprio, no mundo das drogas e da máfia napolitana. Ganhou até uma série romanceada sobre a sua vida.
É como se Diego Maradona fosse um Don Quixote cercado de diferentes Sancho Panças. Ele não gostaria dessa comparação. Preferiria de ser visto como um Che Guevara moderno, alguém que enfrentou “o sistema”, mas que poderia mudar de uma hora para a outra.
“Acho que a imagem de Che Guevara se diluiu para as últimas gerações. Em certo sentido, Diego assumiu esse papel porque, mesmo sem conhecê-lo, o conhecemos. Ele é um assunto que ainda é abordado por todos e transcendeu a Che”, diz Signorini.
Maradona adoraria essa imagem.
“Estava pensando em algo hoje. Quantas centenas de milhares de pôsteres de Diego estão pendurados em paredes no mundo? Qual personagem tem mais canções dedicadas a ele?”
A morte do ídolo exacerbou frase que disse em uma das mais memoráveis coletivas de imprensa de todos os tempos. A mesma em que atacou a imprensa com “la sigan chupando” e direcionou ao radialista Toti Pasman o “y vos lo tiene adentro”: “Eu sou branco ou negro. Cinza não vou ser nunca na minha vida.”
Ou você está comigo ou contra mim. Te amo ou te odeio. Você é meu amigo ou meu inimigo. Maradona era o personagem das redes sociais e dos debates de programas esportivos, onde você é o melhor ou pior do mundo, é gênio ou idiota. Não existe meio termo.
Maradona era branco ou negro. Mas o que é branco hoje, amanhã pode ser negro.
Fernando Signorini não era assim e é personagem único na vida do ídolo maior da Argentina porque sabia que ele era muito cinza. Dentro do mesmo contexto seria capaz de genialidades e bestialidades. Tudo ao mesmo tempo. Ele é um dos raríssimos críticos argentinos do gol de mão contra os ingleses.
“Já havia acontecido antes, hein? Houve uma partida do Napoli contra a Udinese em que ele levou vantagem em um chute longo e enganou o goleiro com um toque de mão”, relembra.
O próprio Maradona contaria essa história em programas de TV com tom de chacota. Ele mesmo se surpreendeu que tenha sido validado e em seguida ouviu os apelos de Zico para que dissesse ao árbitro sobre a irregularidade. “Por favor, Diego. Pelo bem do futebol, fale que foi com a mão, senão é um desonesto”, teria dito o Galinho, segundo a versão de Maradona.
Nas imagens, anos depois, o 10 estica a mão como se tivesse cumprimentando alguém com “muito prazer”: “Desonesto Armando Maradona.”
“O primeiro gol contra os ingleses foi uma trapaça e não deveria ter acontecido”, afirma Signorini. “Mas foi um jogo como a vida de Diego. Era capaz de ir de um extremo ao outro em instantes. Era o melhor e o pior. E minutos depois, em um Argentina e Inglaterra na Copa do Mundo, com todas as conotações políticas e sociais, fez aquele segundo gol. É incrível.”
Ao falar do lance genial contra os ingleses, Signorini se divide entre as histórias no México e na Itália. Como Diego conseguiu compartimentar toda ansiedade e medo que sentia pelo nascimento, cinco meses depois, de Diego Armando Júnior, resultado do seu relacionamento fora do casamento com Cristina Sinagria, para jogar tudo o que jogou na Copa do Mundo.
Era como se um Maradona tivesse permanecido em Nápoles e outro, viajado para o Mundial.
“Eu estava em minha casa num sábado. Por volta das 14 horas, me chama um sujeito, um argentino que jogava basquete na Itália, e pergunta se estou em casa. Ele me conta sobre o filho de Diego e que precisávamos falar com o advogado de Cristina. Eu fui até onde Maradona estava e comecei a golpear a porta. Ele só dizia ‘não, não, não. Me deixe em paz. Não vou...’ Mas foi. Fazia um calor de la puta madre. Pegamos um táxi e o motorista dirigia mais olhando para Diego, no banco de trás, do que para frente. Chegamos na casa desse advogado e ele começa a falar: ‘Você é campeão no futebol e na vida, então queria te dizer que às 6 da tarde vamos divulgar, mas se você assinar um documento assumindo a paternidade, suspendemos tudo.’ Diego estava destroçado.”
Segundo o preparador físico, Maradona estava entregue. Assinaria. Mas foi puxado para fora do apartamento antes disso. Não parava de perguntar “e agora? O que faço? O que faço.”
Signorini o segurou pelos ombros para que parasse com aquilo.
“Você vai chegar em casa e contar à Cláudia. Isso vai sair na imprensa e você precisa estar com ela. Eu vou chamar o presidente do Napoli, o médico, todo mundo.”
Ele diz haver um aspecto a causar o inconformismo de Maradona: a percepção de que havia perdido. Era duro para alguém que jamais aceitou derrotas.
“Isso torna o que fez na Copa do Mundo ainda mais incrível. Ele sabia o que estava prestes a acontecer e jogou tudo aquilo. Foi um fenômeno. Tirou tudo da cabeça e foi lá para ganhar.”
Diego Armando Júnior nasceu em setembro de 1986 e por anos, Maradona continuou, apesar das evidências, negou ser seu filho.
A última vez que Signorini trabalhou ou conviveu diariamente com o jogador que definiu sua carreira e o tornou também conhecido aconteceu na Copa de 2010. Um torneio em que Maradona fez tudo o que era possível para fazer Lionel Messi sair da casca e desabrochar na liderança da equipe. Isso apenas aconteceria quase dez anos mais tarde.
Após a derrota nas quartas de final para a Alemanha e a demissão de Diego do comando da seleção, Signorini se afastou. A morte do amigo poderia lhe trazer o pensamento de como seria se tivesse continuado próximo a ele. Prefere que isso nem passe pela sua cabeça.
“Eu não tenho arrependimentos ou remorsos. Nunca tive isso porque dei a Diego toda a amizade que poderia dar. Fui para ele tudo o que poderia ser. Fiz o que pude por ele como jogador, como técnico, como amigo, como companheiro de todos os momentos. Depois aconteceram todas aquelas coisas. Bem… Posso dizer que quis ser o melhor que poderia por ele.”
*
A parte final do Capítulo 13 será publicada em 3 de abril.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com

