Capítulo 3 (parte 2)
Quinta-feira, 26 de novembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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Eu sempre acreditei no deus da pauta. Aquela entidade espiritual que circula entre o céu e a terra para ajudar jornalistas em momentos de desespero. É figura religiosa análoga a que sempre faz os bêbados chegarem em casa a salvo ou impede que tropecem a cada esquina e desabem no chão.
Ao entrar no Uber poucos minutos após a meia-noite, esperei o motorista iniciar a conversa, como sempre fazem. Detesto quando acontece, mas daquela vez, estava ansioso.
Nada. Ele disse boa noite, confirmou o endereço de destino como Praça de Maio e fechou a boca. Do flat na avenida Córdoba até a Casa Rosada deveriam ser 15, no máximo 20 minutos de carro. Várias ruas estavam fechadas no centro e o trânsito, ainda mais congestionado do que seria de se esperar.
O motorista continuava calado. Talvez tivesse trabalhado o dia inteiro e o cansaço já o dominasse. Havia sido um dia especialmente difícil para a Argentina.
No caminho do aeroporto para o centro, escutei que o velório estava encerrado. O carro que levaria o corpo de Maradona para o cemitério de Bella Vista havia chegado. A polícia começou a dispersar a fila superior a um quilômetro e fechou o acesso à Praça de Maio pela avenida Nove de Julho. Aquilo fez iniciar confusão. Torcedores foram feridos com balas de borracha. Com o nível de tensão elevado, qualquer gota faria transbordar o copo. Foi o que aconteceu quando um homem que aparentava de 30 anos, vestido com a camisa do Boca Juniors, ao ser avisado por um oficial de que o velório havia acabado e não adiantava permanecer na fila, chamou os policiais de “anti pátria”. A ofensa não foi bem recebida e acendeu o estopim da violência.
O velório de Diego foi um microcosmo da sua vida. Mobilizou o povo, a imprensa mundial, emocionou milhões de pessoas, teve cenas caóticas, acabou em tumulto e troca de acusações. No caminho da Casa Rosada até o cemitério, a escolta policial errou o caminho. Um helicóptero foi chamado para transportar o corpo, mas no meio da operação percebeu-se que não havia onde pousar em Bella Vista. O governo federal divulgou comunicado de que o funeral seria estendido até às 19 horas. A família não havia concordado com aquilo e bateu o pé de que o encerramento seria às 16, como acertado antes.
Não faltou esforço para convencer Claudia Villafañe do contrário. Alberto Fernández pediu. Chiqui Tápia pediu. A vice-presidente Cristina Kirchner pediu. O secretário de assuntos políticos Miguel Cibreros e o chefe de gabinete Santiago Cafiero também pediram. Fizeram o mesmo o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, e o deputado Máximo Kirchner (este por telefone), filho de Cristina. Nada foi capaz de fazê-la mudar de ideia. Sem alternativa, o governo voltou atrás. A ex-mulher de Maradona, Dalma e Giannina ficaram alarmadas com a invasão à Casa Rosada por 150 pessoas. Algumas eram integrantes de torcidas organizadas. Eles transformaram o Pátio das Palmeiras, dentro da sede do governo, em tribuna popular de La Bombonera. O caixão teve de ser trocado de sala e levado para o Salón Pueblos Originários. A polícia jogou gás lacrimogênio a poucos metros de onde estava a família e o presidente da República, que pegou megafone e pediu calma para todos. Fernández já havia ido à sacada da Casa Rosada antes disso e feito sinal como que a implorar por tranquilidade. Barras bravas de várias equipes foram à Praça de Maio e tentaram entrar no velório. O comentarista Fernando Niembro diria, no dia seguinte, em programa vespertino da TV aberta, que a intenção dos torcedores mais violentos era sequestrar o caixão de Diego e levá-lo para La Bombonera. A tese nunca foi comprovada.
“Isso é uma loucura. Esta homenagem popular não pode terminar assim”, se exasperou o ministro do Interior, Wado de Pedro.
Assim que ficou claro o tamanho do tumulto e da falta de organização, os governos federal e de Buenos Aires iniciaram troca de acusações sobre de quem seria a responsabilidade. Políticos da situação passaram para os jornalistas, em sigilo, que a culpa era da família. Claudia, Dalma e Giannina teriam sido inflexíveis.
As três disseram estar cansadas de tudo e não viam motivo para esticar o velório, com o risco de mais problemas. O saldo final foi de 12 pessoas feridas (11 policiais e um jornalista). Outras 11 foram presas.
Na madrugada, por volta das 2 horas, Rafael Di Zeo, líder da 12, a mais famosa organizada da Argentina, entrou no velório até então privado para familiares, amigos e autoridades. Um dos nomes mais conhecidos do futebol nacional, condenado a quatro anos e três meses em regime fechado na penitenciária de Ezeiza por coação, orgulhoso de ter uma das agendas telefônicas mais completas do país e apontado como participante em “serviços de inteligência” para políticos e em eleições, ele é proibido de entrar nos estádios. Está incluído no “direito de admissão”, a lista de torcedores violentos barrados do futebol. No velório de Diego Maradona, dentro da sede do governo federal, ele circulou sem problemas.
Quando o Gimnasia enfrentou o Boca Juniors, em março de 2020, na última vez em que Maradona esteve em La Bombonera, Di Zeo, Mauro Martin (seu antigo inimigo pelo comando da 12) e outros 400 organizados escoltaram o ônibus da delegação de La Plata a partir da Coronel Tomás Esporta com Almirante Brown até o estádio.
Mesmo que de forma involuntária, o velório se tornou um desfile de quem é quem na sociedade argentina, com a presença de ministros, governadores, esportistas, dirigentes, atores, atrizes e músicos. Também se fez política. Foi a noite em que Cristina Kirchner, estremecida com Alberto Fernández, entrou na Casa Rosada pela terceira vez depois da vitória na eleição de outubro de 2019 que os guindou ao poder. Foram enviadas dezenas de coroas de flores. Fernández encomendou duas. Uma da presidência e outra sua, pessoal. Pelé enviou outra com a frase “Deus lhe deu o gênio, o mundo lhe deu seu amor.”
O restante do planeta lhe deu amor, mas nada comparado à Argentina. As emissoras de TV do país mostraram à exaustão a imagem de dois torcedores de cabelos grisalhos, abraçados a chorarem em frente à Casa Rosada. Um usava a camisa do Boca Juniors e o outro, a do River Plate. Era a simbologia ideal para mostrar o quanto a dor da perda de Diego atingiu o país. Havia dezenas histórias de gente que saiu de casa de madrugada e de muito longe para tentar prestar a última homenagem ao ídolo. A maioria não conseguiu por causa do pouco tempo do velório. Quem teve sucesso tentou marcar sua passagem de alguma forma. Com um último gesto de apoio, com um grito, ao atirar uma camisa na direção do caixão. Um torcedor jogou a chupeta do filho que estava em seu colo.
Para conseguir driblar a multidão na Praça de Maio, o cortejo com o corpo de Maradona saiu da Casa Rosada pelo Paseo Colón para o percurso de 40 quilômetros a Bella Vista. Uma multidão ficou à beira da estrada para aplaudi-lo. Eram 800 policiais nos arredores do cemitério. As ruas próximas ao local foram isoladas. No esquema de segurança no centro de Buenos Aires, foram utilizados mais de mil oficiais. Segundo o canal Trece, a polícia não conseguiu atender ocorrências em outras partes da cidade porque o efetivo estava deslocado para o velório.
Como foi seu desejo manifestado anos antes, o 10 foi enterrado ao lado dos restos mortais de dona Tota e don Chitoro. Essa vontade entrava em conflito com outra, manifestada semanas antes de sua morte: a de ter o corpo embalsamado e exposto à visitação pública. Esse pedido acabou ignorado. O caixão foi carregado por cinco pessoas: as filhas Dalma e Jana, o irmão Lalo, Daniel López e o empresário Guillermo Coppola, uma das figuras centrais e controversas da vida de Maradona. Ao ver pela TV a imagem do agente, amigo do ex-jogador mandou mensagem para um jornalista argentino:
“Eu não te disse que esse sujeito ia carregar Diego para a cova?”
Depois do enterro, à noite, todos os estádios do futebol profissional da Argentina acenderam os refletores para homenageá-lo. Na rodada seguinte do campeonato, os times jogariam com a imagem do ex-capitão da seleção no uniforme. As ideias foram de Javier Grosman, organizador do funeral do ex-presidente Néstor Kirchner e dos festejos do bicentenário do país, em 2010. Grosman é amigo de Marcelo Tinelli, um dos rostos mais conhecidos da TV aberta, vice do San Lorenzo e um dos homens fortes do futebol nacional. A cena mais tocante aconteceu em La Bombonera. O estádio permaneceu às escuras. Apenas o camarote de Maradona ficou aceso.
Cansei de esperar que o motorista do Uber puxasse assunto. Olhei para o celular para ter certeza de que não havia me enganado. Não, não havia. O nome dele era Diego Armando.
“Você se chama Diego Armando por causa do Maradona?”
“Não”, respondeu quando eu quase nem havia terminado de fazer a pergunta.
Calou-se de novo.
Por causa das ruas fechadas, ele teve de sair da Córdoba e entrar na Riobamba, Callao, Uruguay e depois Bartolomé Mitre. O fluxo de pessoas ia na direção contrária à minha. Voltavam da Praça de Maio. Deixavam o funeral de Maradona para que a vida continuasse a partir daquele dia que se iniciava. Casais de namorados andavam abraçados, outros estavam enrolados com a bandeira argentina. Um deles carregava som estéreo, tão antigo que possivelmente comprado no tempo em que Diego jogava no Newell’s Old Boys. No volume máximo, repetia e repetia a canção de Rodrigo que se tornou a mais conhecida sobre o jogador. Também era a que ele mais gostava. Falava do menino que saiu da pobreza, onde no “potrero forjó una zurda imortal”, depois “llenó alegría em el pueblo” e “regó de glória este suelo”.
Parecia um clima de pós-jogo de Copa do Mundo, mas com derrota da seleção local. As ruas semi desertas poderiam ser consequência da pandemia da Covid-19. Mas aquilo não havia sido problema nas 36 horas anteriores, com milhares de argentinos dispostos a tudo para homenagear Maradona. Até a desafiar um vírus.
Perto de cruzar a Nove de Julho, o carro parou em frente ao semáforo. O motorista suspirou.
“Está bem. Eu me chamo Diego Armando por causa do Maradona”, confessou, sem olhar para trás.
Eu já havia pensado que ele poderia ter mentido. Não aparentava ter mais de 40 anos (estava com 33, disse depois), então havia nascido depois da Copa de 1986. Diego era um nome muito comum. Mas Diego Armando?
“A verdade é que meu pai me batizou assim por causa de Maradona. Ele tinha prometido que se a Argentina vencesse a Copa do Mundo, daria ao primeiro filho o nome do capitão da seleção”, continuou.
“Imagino que muita gente lhe pergunta isso.”
“Sempre. Na maioria das vezes estou sem paciência e respondo que não. Senão tenho de contar a mesma história sem parar.”
“Desculpe, então.”
“Não, por favor. Não há problema.”
Acelerou o carro.
“Imagino que foi um dia bem triste para você.”
Não foi uma observação brilhante, claro. Era apenas tentativa de manter a conversa viva.
“Para todos os argentinos. Diego era ídolo das pessoas. Acho que todos se identificavam com ele, mas...”, hesitou por um instante. “Talvez você devesse falar sobre isso com o meu velho. Ele está inconsolável. Fiquei até preocupado. Queria tentar vir para o velório e tivemos de convencê-lo de que era melhor não fazer isso, teria confusão. E teve, não foi?”
A voz dele era mais resignação do que tristeza.
“Você não gosta de futebol?”
“Gosto, claro. Não tem como não gostar. Meu pai me levava para Avellaneda quando eu tinha quatro anos. Somos todos de Rojo. Não sou fanático. Tenho mulher e um filho para cuidar. Não posso ficar obcecado com isso. Se o Independiente ganha, fico feliz, mas não saio na rua para comemorar. Se perde, vou dormir no mesmo horário, saio para trabalhar no dia seguinte. Nada muda. Não deixei minha casa durante todo o dia. Só havia confusão e aglomerações no centro. Decidi que só começaria a trabalhar quando tudo acabasse.”, finalizou, antes de suspirar de novo.
“Você achar que é perigoso circular aqui pelo centro hoje à noite a pé?”
Diego Armando respondeu com um muxoxo.
“Eu tomaria cuidado.”
Segundos depois, estacionou seu Corolla na esquina da avenida Hypólito Yrigoyen com a Peru.
“Vou ter de deixá-lo aqui. A praça está fechada.”
“Tudo bem. Obrigado, Diego.”
“Suerte.”
Desci do carro. O primeiro portenho com o qual conversei era um Diego Armando que não gostava de futebol e não me pareceu ter ficado tão triste assim com a morte de Maradona.
Comecei bem.
O silêncio havia tomado conta da Praça de Maio. Na avenida de Maio e Rivadavia, as ruas eram limpas e um caminhão de lixo circulava pela região. Os únicos sons ouvidos eram de vassouras raspando o chão pelas mãos de funcionários da prefeitura e os de garrafas atiradas em sacos ou na caçamba do veículo. Dois homens dividiam vinho em frente à Catedral Metropolitana enquanto a polícia retirava barreiras colocadas para proteger prédios como a sede do Banco de la Nación. Um casal com duas crianças caminhava sem pressa como se fosse meio-dia, não meia-noite. Dois grupos de pessoas estavam sentadas nos bancos de concreto, em conversas quase sussurradas. Três adolescentes falavam um pouco mais alto, encostados em suas bicicletas. Um deles vestia a camisa da seleção argentina, os outros dois, do Racing. As homenagens deixadas nos portões da Casa Rosada ainda estavam lá, penduradas nas barras de ferro. Cruzes, terços, bandeiras, adereços alvicelestes, flâmulas de diferentes equipes com o rosto de Maradona e cartazes. Um deles, de cartolina e escrito com caneta esferográfica, dizia: “o povo chorava e quando o povo chora, que ninguém diga nada porque tudo já foi dito”.
Atrás do portão, dentro da Casa Rosada, quatro policiais conversavam distraídos. Chamei um deles para perguntar por quanto tempo as homenagens ficariam ali. Ele sinalizou não poder falar.
Logo acima dos oficiais estava a sacada de onde Diego havia arengado a massa duas vezes. Com a taça de campeão do mundo nas mãos em 1986, cantou junto com os milhares de torcedores as músicas de arquibancadas da seleção na festa do título.
Quatro anos mais tarde, ficou comovido com a recepção no mesmo lugar para o time derrotado na final pelos alemães graças ao pênalti inexistente marcado pelo árbitro mexicano Edgardo Codesal. O então presidente Raúl Alfonsín deixou as sacadas da sede do governo livres para os jogadores e comissão técnica serem idolatrados pelo povo. Preferiu ficar dentro da Casa Rosada. Não foi o mesmo que fez Carlos Menem em 1990. Para colar sua imagem a de Diego, não saiu do lado dele em nenhum momento. Maradona não reclamou. Dias antes do início do Mundial, havia deixado o político a esperar, em Milão, para cerimônia em que foi nomeado embaixador para o esporte da Argentina e ganhou passaporte diplomático.
Funcionários da limpeza começaram a usar jatos d’água para tirar a sujeira das ruas em volta da praça. Aquilo fez os que usavam vassouras pararem. Encostaram em parede na esquina da Reconquista e acenderam cigarros.
“Até que está calma a região. Nem está tão suja assim”, comentei com um deles.
“Agora está quase terminado. Você tinha de ver como estava isso há duas horas. Eu já esperava que teria muito trabalho. Preferia não ter de fazer isso”, respondeu.
“Imagino que o volume de lixo tenha sido muito grande.”
“Mas não por isso”, ergueu a voz, para deixar claro que não tinha nada a ver com a limpeza em si. “Queria muito que Diego estivesse vivo. O vazio deixado por ele nunca será preenchido.”
Apenas para esticar a conversa, contei sobre o nome do motorista que me levara até ali.
“Imagine quantos serão batizados assim a partir de hoje! Eu prometi para meu velho que se tivesse um filho, ele se chamaria Ernesto, como o pai dele, meu avô. Tenho uma filha, mas se no futuro tiver um menino, a tentação de chamá-lo de Diego será grande”, confessou ele, que se chamava Eduardo Correa.
Segurança de prédio da Reconquista se aproximou e pediu um cigarro. Eduardo tirou do bolso e lhe entregou. Por não ter nada a fazer naquela noite silenciosa, ficou por ali mesmo. Ninguém iria querer invadir um edifício horas depois do enterro de Maradona, não é?
“Ele é jornalista brasileiro. Veio para cá por causa do funeral de Diego”, anunciou Eduardo.
“Ah”, resumiu o segurança.
“Pena ter havido confusão com policiais e brigas”, comentei.
“A gente sabia que haveria comoção popular, mas também baderna. Foi uma pena porque Maradona não merecia isso. Nunca o vi pessoalmente e quase não o assisti jogar. Mas ele deu tantas alegrias ao povo argentino que o velório deveria ter continuado por mais tempo para que o povo pudesse homenageá-lo. Estava muito bagunçado”, lamentou o funcionário do prédio, Osvaldo Daniel.
“Eu esperava que duraria mais tempo, realmente.”
“Foram menos de 24 horas. Acho que cometeram um erro enorme. Eu mesmo queria ter visto o caixão e prestado meus respeitos a ele, que é um herói do país. Mas quando vi que terminaria às 16 horas, percebi ser impossível”, completou.
“Diego merecia muito mais. Quem deu mais alegrias ao povo do que ele?”, questionou o gari.
“Ninguém”, respondeu o segurança.
Os dois ficaram em silêncio depois disso. Osvaldo ficava com os braços esticados para trás, a não ser quando queria dar uma baforada. Eduardo pôs a vassoura no asfalto e se apoiou no cabo.
“Vai levar tempo para tudo voltar ao normal”, observei.
“As coisas têm de voltar ao normal cedo ou tarde. É a vida”, concordou o vigia.
“O que Maradona representa para vocês?”
“O mesmo que representa Pelé para vocês, brasileiros”, Eduardo respondeu.
Ele percebeu pela minha expressão que eu não concordava com aquela opinião.
“Não?”, quis saber.
“No futebol, pode ser. Mas acho que a relação pessoal e emocional que os argentinos têm com Diego é algo muito mais forte.”
O gari não respondeu nada. Pareceu surpreso.
“A primeira vez que chorei por causa de futebol foi com Maradona”, observou Osvaldo.
“1990?”
“Não. Não me lembro muito do Mundial da Itália. Tinha cinco anos. Foi em 1994 e o doping. Quando vi a entrevista de Diego e ele disse que haviam lhe cortado as pernas, chorei porque tive um senso de injustiça muito grande. A Argentina foi eliminada logo em seguida, mas creio que para muita gente o torneio acabou quando Maradona foi afastado.”
Quase a uma da madrugada, havia mais gente na Praça de Maio do que a meia-noite. Um casal de namorados se esforçava para tirar foto que contemplasse o desenho do rosto de Maradona pintado no chão, a bandeira da Argentina a dez metros de altura e a Casa Rosada ao fundo. A cada tentativa frustrada, ela se irritava com a falta de competência fotográfica do garoto que vestia modelo retrô do Boca Juniors com o nome do ídolo morto às costas. Depois de 15 cliques, ele jogou a toalha. Ela, não. Com o seu celular, tentou mais algumas vezes.
“Já está, Romina. Vamos embora”, pediu.
“Calma!”, ela se aborreceu.
Tentou mais alguns minutos. O namorado não disse mais nada para não irritá-la.
“Acho que consegui”, disse a namorada.
Ela mostrou a foto e, pela expressão dele, duvidava do sucesso da foto. Mas para encerrar o assunto, balançou a cabeça a aprovar a qualidade da imagem que seria postada pela garota no Instagram minutos depois e compartilhada pelo rapaz.
O desenho no chão era do rosto de um Maradona jovem, com expressão séria e cabelo farto, com corte que usava na década 1980. Ainda lembrança do apelido de Pelusa. Pareceu-me que o modelo havia sido uma imagem do Mundial de 1986. Em volta da pintura, torcedores colocaram flores e acenderam velas, como se ali estivesse um altar. Seria interessante achar quem se deu ao trabalho de desenhar aquilo no dia do funeral. Do lado direito, próximo ao jardim, um sujeito estava sentado ao lado da sua bicicleta, olhar perdido e garrafa de Heineken nas mãos. À sua frente, uma caixa de som tocava “Y dale alegría a mi corazón”, de Fito Paez.
Será que ele era o autor da arte? Seria bacana entrevistá-lo se fosse.
“Foi você quem fez essa pintura?”
Ele pareceu não entender.
“Foi você quem fez essa pintura?”, repeti mais alto.
O rapaz balançou a cabeça. Sim.
“Posso me sentar?”
Outra aprovação com a cabeça. Sentei-me no concreto da Praça de Maio imundo pelas solas de milhares de sapatos que pisaram ali no dia anterior.
“Escute isso”, ele pede, enquanto a voz do cantor pedia “dale alegría, alegría a mi corazón, que ayer no tuve un buen día, por favor. Y dale alegría, alegría a mi corazón. Que si me das alegría estoy mejor.”
Esperou esse trecho acabar e bebeu um pouco de cerveja. A melodia e a letra casavam bem com o clima.
“Me disseram que as pessoas poderiam não gostar das músicas, mas as estou tocando em homenagem a Diego”, disse Ezequiel Marchini.
Ele havia feito a seleção com canções futboleras que Maradona gostava, acreditava o torcedor.
“Ninguém vai reclamar. São boas músicas”, estimulei.
“Até agora ninguém disse nada. Acho que gostaram, sim”, falou, satisfeito.
“Todos querem homenagear a Diego.”
Os seus olhos se encheram de lágrimas. Ele usou o agasalho do Boca Juniors que vestia para secá-las.
“Nós, argentinos, somos vistos como arrogantes. Mas ele nos tirou do chão”, disse, apontando para o rosto pintado no chão. “Quatro anos antes da Copa de 1986, garotos como ele estavam morrendo na guerra. Ele nos deu tanto e nos últimos anos passou muito mal. Eu gosto de ver os gols, a picardia e a rebeldia que tinha em campo. Toda criança sonha jogar em sua seleção e ganhar a Copa do Mundo. Diego conseguiu. Nunca ninguém vai chegar perto dele”, discursou Ezequiel para si mesmo, não para mim.
Maradona representava tudo o que qualquer criança apaixonada por futebol desejava ser, mas sabia ser quase impossível. Por isso disse entender as fraquezas do jogador com as drogas. Ser Maradona era tarefa que exigia um sacrifício inimaginável, acreditava.
“Você consegue perceber o que é ter 18 anos, dizer ‘quero uma Ferrari’ e pronto: no dia seguinte o carro está lá? Isso mexeria com a cabeça de qualquer um. Tudo por causa do quanto sabia jogar futebol. E com o futebol ele nos fez muito felizes”, completou Ezequiel, que reconhece ter visto muito pouco Maradona jogar. Quando o 10 se aposentou, em 1997, ele tinha 12 anos.
Colocou a garrafa da Heineken de lado e abriu outra.
“Conseguiu entrar no velório?”
“Não. Cheguei só à tarde. Sabia que seria impossível. Quis ficar aqui para prestar uma homenagem. Vim com um amigo, mas ele já foi embora.”
“E não vai para casa também? Já é de madrugada.”
“Por enquanto, não vou embora. Vou ficar mais um pouco, beber as minhas cervejas e pensar em Diego.”
Ezequiel apenas esboçou sorriso triste ao ouvir que a vida, aos poucos, vai voltar ao normal.
“É verdade. Mas não será agora.”
Perguntei se aceitaria tirar uma foto ao lado do desenho com o rosto de Maradona. Ele topou e posou enquanto eu ajustava o foco da câmera do celular. A imagem não ficou boa. Só aceitável.
“Levou muito tempo para fazer esse desenho?”
“Esse aqui?”, perguntou, enquanto olhava para a imagem cercada por velas e flores.
“Sim, claro.”
“Não faço ideia.”
“Não foi você quem desenhou?”
“Eu, não. Quando cheguei, a pintura já estava feita.”
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O capítulo 4 será publicada em 22 de dezembro.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com

