Capítulo 8
Domingo, 29 de novembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
*
“Não é aqui.”
“Está muito movimento ali na frente, vai facilitar para mim se você descer aqui. Tem problema? O apartamento de Diego é na próxima esquina.”
Alberto subiu no meu conceito. Ele ficou com medo da fama de Villa Fiorito ao parar o carro em frente à delegacia e apontar onde me esperaria. Aquele taxista que eu não sabia o nome se recusava a fazer o carro andar mais 300 metros na Villa Devoto, o “jardim de Buenos Aires”. Um bairro de alta classe repleto de casas e prédios de alto luxo, a região da capital com mais áreas verdes e menos trânsito.
Dalma Maradona conta que quando era adolescente e entrava no carro, nem precisava dizer o endereço. O motorista a reconhecia e já perguntava:
“Segurola y Habana?”
A região parecia um grande condomínio fechado dentro da capital. Idosos caminhavam com calças de abrigo para garantir o exercício diário. Alguns olhavam contrariados para os forasteiros que começaram a aparecer desde o início da tarde de 25 de novembro. Como se fossem perturbadores do calmo ambiente. Talvez fossem mesmo. Moças mais jovens corriam em trajes de ginástica, a ignorarem as idas e vindas de gente com camisas de times ou da seleção.
Uma corretora de imóveis consultada pelo autor considerou que, para comprar um apartamento naquele bairro, é preciso ter, no mínimo, US$ 400 mil, desde que seja um dos mais simples. Não é difícil achar por ali casas de US$ 1,5 milhão. Não é um valor proibitivo tem para quem tem dinheiro de verdade neste mundo de meu Deus. Para as centenas de pessoas que iam pela primeira vez à Segurola y Habana, era como sonhar ir à Lua.
Avenida Segurola é homenagem ao sacerdote Saturnino Segurola y Lezica, introdutor da vacina contra a varíola na Argentina. A calle Habana lembra a capital de Cuba. Diego se identificaria mais com a rua do que com a avenida. Seria recordação de seu amigo Fidel e do ídolo Che. Não que ele não gostasse de sacerdotes, embora tivesse sentimentos ambíguos com relação a alguns papas. Nenhum religioso poderia competir, na estima do 10, com os integrantes da revolução que começou em Sierra Maestra.
Havia bandeiras argentinas penduradas nas janelas. Um segurança disse terem sido colocadas após a morte de Maradona. No caminho entre as ruas Marcos Paz e Habana, até chegar a Segurola, não estava à vista nenhuma de clubes. Apenas três do país. Combinavam mais com o momento do que com o bairro em si. Vizinhos conversavam em frente a prédios, com o olhar sempre direcionado à esquina que já era famosa desde 1995, mas que desde a quinta-feira anterior se tornara ponto de encontro.
“Eu acho interessante. Tem movimento, gente passando. Tem vida. Geralmente isso aqui é tranquilo demais. Mas nem todo mundo acha isso. Alguns moradores mais antigos estão aborrecidos”, opinou Javier, funcionário de um prédio do bairro, parado com a sua bicicleta a poucos metros do lugar de peregrinação.
Quanto mais perto do cruzamento famoso, maior a aglomeração. Famílias chegavam a pé depois de terem deixado o carro em algum local próximo. Outros desembarcavam de táxis conduzidos por motoristas não preguiçosos. Daniel Montero apareceu pedalando. Estava com dois amigos que foram embora, mas ele ficou. Trajava camisa pirata da Argentina e short do Vélez Sarsfield. Demorara 45 minutos do Parque Chacabuco, onde morava, até o endereço em que só ouvira falar das histórias e por seu pai ter mencionado uma vez ou outra.
“Eu imaginei que haveria muita gente aqui. Tudo o que está ligado a Diego atrai as pessoas. Ainda mais agora. Queria ter vindo na quinta, mas não houve tempo. Na sexta tentei ir ao velório. Não consegui entrar e ainda quase levei bala de borracha da polícia”, afirma o garoto de 16 anos.
“Meu pai sempre detestou qualquer jogador ligado ao Boca e me ensinou isso. Menos Diego. Ele era especial, o ‘más grande’. Ontem eu passei o dia revendo seus vídeos no YouTube.”
Juan, pai de Daniel, estava em Liniers na noite em que Maradona chamou o árbitro Javier Castrilli de “botón” porque se recusava a responder às perguntas do 10, que não entendia as decisões do juiz na goleada por 5 a 1 sofrida pelo Boca Juniors.
Isso depois de pedir, “como seres humanos”, com as mãos juntas, para que Castrilli conversasse com ele.
“Eu queria ter estado lá”, lamenta Daniel, nascido em 2005, dez anos depois da partida. Ele depois se corrige. Gostaria de ter visto ao vivo qualquer jogo de Maradona. Parecia ser a tônica dos transeuntes que poderiam lamentar não terem nascido antes.
Considerada que a última aparição em campo como profissional de Diego havia sido em 1997, era necessário ter pelo menos três décadas de vida para ter uma recordação do craque. A maioria naquela tarde na esquina de Segurola y Habana não parecia ter chegado a este número.
“Acho fantástico. São essas pessoas que vão manter a memória de Maradona viva e a passarão para os filhos. Sei que existem as imagens e essas estarão sempre na TV, mas é preciso uma história oral do que ele representou. E se esses garotos tivessem visto Maradona com seus próprios olhos, saberiam que ele foi ainda maior do que os vídeos mostram”, disse um senhor que havia levado filho e dois netos para prestar homenagem ao 10. Estava encostado em seu Volkswagen azul, sem querer se aproximar da aglomeração pelo medo da pandemia.
O prédio para o qual todos olhavam, parecendo incomodar moradores, tinha uma placa de “vende-se” no apartamento do primeiro andar. O anúncio havia sido colocado pela Enrique Cannone Imóveis e o local era oferecido no site da empresa.
Os 400 metros quadrados, cinco quartos, cinco banheiros e duas vagas na garagem podiam ser adquiridos por US$ 700 mil.
Apenas Diego poderia provocar aglomeração e idolatria em uma esquina sem nenhuma conexão com a paixão popular pelo futebol. Segurola y Habala formavam uma mitologia que o craque criou a partir do nada, mas que entrou de forma instantânea ao folclore imortal do futebol argentino.
“Vou reperir a Toresani. Segurola e Habana 4310, sétimo piso. E vamos ver se dura 30 segundos”, ele disse, ao vivo na TV, em rede nacional, para responder ao desafio do atacante Julio Cesar Toresani, que havia dito estar pronto para brigar com Maradona.
Era o endereço onde o então atacante do Boca Juniors vivia naquele outubro de 1995 e para onde foi depois da discussão com o rival em partida contra o Colón, pelo Apertura. A história foi incorporada ao arsenal de clássicos protagonizados por ele.
Naquele domingo, 25 anos depois, o movimento de pessoas era constante. Quem chegava, pendurava algo no poste no qual estavam colocadas duas placas. Uma sinalizava “Habana”, a outra “Segurola”. Mas desde 25 de novembro, foram trocadas. Habana passou a ser Diego. Segurola foi renomeada para Maradona. Este passaria a ser o nome oficial do cruzamento quase um ano depois, por iniciativa da Legislatura de Buenos Aires.
Mais alta que as outras oferendas, estava uma camisa do Boca Juniors. Como em La Bombonera ou na Paternal, havia cartas, bilhetes, fotos, cruzes, rosários, flores, imagens de santos. Algumas pessoas tinham dificuldade para prender sua lembrança porque o poste era muito fino e já estava repleto de objetos. Houve quem achasse mais fácil simplesmente colocá-la no chão. Todos, sem exceção, registravam seu momento próximo à casa de D10s com uma foto sozinho ou em grupo. A “agrupación nuevo Boca” esticou faixa que dizia ser Maradona “eterno em nossos corações”.
Motoristas que passavam de carro buzinavam mais de uma vez e reduziam a velocidade em frente ao prédio. Motorizados, de bicicleta e pedestres olhavam para cima, em direção ao sétimo andar.
“Eu vim quinta-feira no final da tarde, horas depois da morte de Diego. Você precisava ver como estava isso aqui. Tinha gente batendo bumbo e cantando em homenagem a ele. Parecia La Boca”, disse Mariano, que voltou naquele domingo, três dias depois, para levar o sobrinho Carlos. Ambos ficaram por dois minutos, contemplaram o movimento e foram embora.
“Acho incrível que ainda tanta gente venha aqui. Isso mostra o que Maradona representa”, completou, antes de montar no banco e pedalar para longe.
A entrada do prédio tinha dois degraus largos que levavam à porta de vidro, com tijolos nas duas extremidades. À esquerda, estava o interfone. Se os apartamentos, segundo o anúncio, eram espaçosos, a fachada não era especialmente luxuosa, mas monocromática e conservadora. Era possível ver o hall interno. Duas senhoras conversavam, sentadas em um sofá próximo ao elevador. Miravam o fluxo de transeuntes do lado de fora e apontavam. Com certeza não esperavam por aquilo quando se mudaram para Villa Devoto em busca de tranquilidade.
No acesso ao edifício, nas muretas de concreto, torcedores colocaram fotos de Maradona e adesivos. O cheiro de vela ainda estava presente e os restos de cera deixavam o cimento esbranquiçado e irregular.
Segurola y Habana não era o único endereço residencial ligado à vida do ídolo, mas com certeza era o lembrado com mais carinho pelos torcedores. Havia o seu confortável apartamento no sétimo andar da esquina da Libertador e Correa, próximo ao estádio do River Plate, onde morava quando resolveu voltar à seleção após a goleada de 5 a 0 obtida pela Colômbia sobre a Argentina, em 1993. O lado infame da trajetória do ídolo está ligado a Franklin, 896, um prédio em Caballito. Todas as principais redações de jornal, rádio e TV receberam telefonema anônimo em 26 de abril de 1991 para avisar que, às 3 da tarde, naquele local, a polícia daria uma batida e prenderia Maradona. A data ficou conhecida como o dia em que o menemismo traiu Diego e ofereceu uma cobertura midiática de sua prisão para desviar o noticiário dos problemas do governo.
Ele havia sido suspenso naquele ano por causa do doping no Napoli e estava em Buenos Aires. Tinha brigado com Claudia Villafañe e saído à noite com amigos.
Políticos e policiais sabiam onde estava e que portava cocaína. Maradona foi acordado por um policial, que o prendeu. Para causar ainda mais sensacionalismo, gente ligada ao presidente Carlos Menem chegou a divulgar que o astro havia sido preso com 100 gramas de cocaína e deitado nu ao lado dos dois amigos, para insinuar uma relação homossexual.
Ele foi detido com três gramas de pó e vestido, conforme informou a polícia pouco depois à juíza Amelia Berraz de Vidal.
Não eram os únicos endereços. Havia o estádio do Gimnasia, La Bombonera, Villa Fiorito, a clínica onde foi internado… Onde Diego passou, valeria a homenagem.
“O apartamento está vazio. Nem adianta. Claudia esteve aqui há alguns meses. Ficou alguns minutos e foi embora”, disse um senhor ao me ver pressionar o interfone do sétimo andar. Ele não quis dizer seu nome porque, segundo o próprio, não dava entrevistas. Fiquei sem saber de onde tirou a informação que Villafañe esteve por ali.
Quando Maradona morreu, ela estava no meio da batalha judicial contra o ex-marido que também envolvia o apartamento em Segurola y Habana. Pelo processo que corria na Justiça argentina, estavam no sétimo piso mais de 400 objetos de valor ligados à carreira do jogador.
A memorabilia fez parte de um museu itinerante que passou por diferentes cidades do país em 2003. Leiloados, teriam valor considerável. Como as chuteiras usadas no gol contra a Inglaterra em 1986 ou a camisa do Boca Juniors que vestiu em sua festa de despedida, em 2001.
Aguardei por cerca de uma hora na vã esperança de que algum morador saísse do prédio. Curiosos apareciam e grudavam o rosto no vidro para ver como era o saguão. Um deles colou adesivo com o rosto de Maradona na porta. Era o terceiro dia que fazia aquilo, explicou. Era sempre retirado horas depois, então ele voltava na tarde seguinte para repetir o processo. Não entendia como algum morador poderia se incomodar com uma homenagem ao “homem mais importante da Argentina”.
Imagino que para os mais antigos do prédio, o mito seja mais distante. Eles conheceram o “vizinho Maradona”, um residente como qualquer outro.
Se Segurola y Habana e o prédio de fachada marrom ficaram para sempre na mitologia de Diego, a inimizade com Julio Cesar Toresani passou logo. Eles atuaram junto no Boca Juniors em 1996 e, ao chegar a La Bombonera, o atacante ouviu de Maradona que era bem-vindo. O passado ficava no passado.
Toresani se tornou técnico após pendurar as chuteiras. Deprimido pela separação da mulher, pela distância dos filhos e afastado do futebol após deixar o comando do uruguaio Rampla Juniors, em 2019, ele se matou enquanto vivia em um quarto de hotel mantido pela Liga Santafesina. Maradona mandou uma mensagem pública aos filhos do ex-desafeto e ex-companheiro. Lamentou também não ter conseguido fazer nada para ajudá-lo.
Na ida de táxi notei a existência de estações de trem próximas. Seria mais fácil retornar ao centro assim. Pelo menos eu teria certeza do destino final da viagem e não seria surpreendido por motoristas com preguiça de percorrer mais algumas quadras. A estação mais próxima era Devoto, mas com meu senso de direção que Aracy de Almeida definiria como “aquele sobre o qual não resta menor dúvida”, caminhei para o sentido inverso. Andei o dobro do necessário, mas encontrei a Sáenz Peña.
Naqueles tempos de Covid-19, as catracas funcionavam somente para quem tinha o cartão Sube, que poderia ser carregado com créditos. Não seria o mesmo para trens metropolitanos, imaginei.
Seria. Não havia nenhum lugar para comprar bilhetes e, sendo domingo, tudo estava fechado. Um funcionário da companhia de trens me observava por atrás do guichê. Tinha expressão tão confiante quanto a de Gonzalo Higuaín em uma final pela seleção argentina. Com a mão no queixo, reparou enquanto eu procurava onde comprar ticket ou o tal cartão Sube. Nada. Nossos olhares se cruzaram e ele sentiu que teria de falar comigo. Não percebi qualquer empolgação com a perspectiva.
“Senhor, onde posso comprar um bilhete?”
“Você não tem cartão?”
“Não.”
Ele ficou em silêncio por alguns segundos até bufar e balançar as mãos na direção da plataforma.
“Pasa, pasa. Hoy es grátis.”
*
Os rugbiers não foram os únicos criticados por uma homenagem tímida a Maradona. Reclamações foram reservadas também a Lionel Messi, que fez “apenas” uma postagem em sua conta de Instagram para lembrar do ídolo. Ele calou detratores argentinos, aqueles de eterna má vontade com um dos maiores jogadores da história.
Ao fazer o quarto gol do Barcelona contra o Osasuna, no Camp Nou, Leo cumprimentou todos os colegas de time e soltou a tarja de capitão. Tirou a remera blaugrana e, por baixo, estava a do Newell’s Old Boys, número 10, modelo de 1993, ano em que Diego jogou pelo clube de Rosário, aquele que é o do coração de Messi.
Daniel Arcucci depois escreveria, no site da El Gráfico, que Lionel havia sido presenteado por Sergio Fernández, professor, colecionador de camisas e torcedor da Lepra. O uniforme havia sido realmente usado por D10s.
Logo depois, Messi postou em sua conta no Instagram uma foto de Maradona pelo Newell’s e a sua, ao lado, com a mesma indumentária. “Hasta siempre, Diego”, escreveu.
Um garoto de seis anos pendurado nos ombros do pai Jorge, Lionel estava no estádio hoje chamado de Marcelo Bielsa naquele 7 de outubro de 1993 quando Maradona estreou pelo time de Rosário em amistoso contra o Emelec, do Equador. Messi reconhece que só leu um livro até hoje: “Yo soy Diego”, a biografia em primeira pessoa do ex-jogador escrita em colaboração entre Daniel Arcucci e Ernesto Cherquis Bialo. No dia seguinte ao seu primeiro gol como profissional pelo Barcelona, em 1º de maio de 2005, diante do Albacete, o telefone tocou em sua casa e, ao receber o aparelho das mãos de Jorge, o então garoto de 17 anos ficou mudo. Era Maradona quem ligava para parabenizá-lo.
Messi levou a família para conhecer o ídolo em Buenos Aires ao participar em uma estranha partida que misturava futebol e tênis ocorrida em uma das edições do “La Noche del Diez”, transmitido pelo canal Trece também em 2005. Além dele e Maradona, estavam presentes Carlos Tevez e Enzo Francescoli. A família ficou empolgada mas quando Diego entrou no camarim, todos estavam tão nervosos que esqueceram de tirar as fotos planejadas com antecedência.
Lionel passou boa parte da juventude e vida adulta sendo comparado com Diego. Ao ser avisado sobre a existência de um garoto talentoso da periferia de Rosário, o empresário e conselheiro do Barcelona Josep María Minguella escutou que havia um novo Maradona. Ele havia passado longo tempo tentando fechar a transferência do então craque do Boca Juniors para a Espanha até conseguir, em 1982.
Quando escreveu um relatório para a direção do clube catalão sobre a magérrima criança argentina das categorias de base, Tito Villanova resumiu com um “basicamente, ele é um pequeno Maradona”.
Isso nem sempre lhe fez bem porque o atacante que era Maradona pelo Barcelona não conseguia sê-lo na seleção até as vitórias na Copa América de 2021 e 2024 e o Mundial de 2022. Após a queda nas quartas de final do torneio continental de 2011, um ano após passar a Copa do Mundo sem fazer gols na África do Sul, ouviu acusações de que havia se mudado para o exterior aos 12 anos e era espanhol, não argentino. Pouco importava ter recusado a chance de defender a equipe europeia para atuar pelo país em que nasceu. Messi fala castellano com sotaque de Rosário. O raciocínio era simples: a bola não entrou, então ele não pode ser argentino.
Os dois naufragaram juntos no Mundial de 2010. O técnico Maradona não conseguiu armar um esquema capaz de enfrentar a Alemanha nas quartas de final. Como Messi não elevou seu jogo para superar o rival, teve de carregar boa parte da culpa. Diego tentou ajudá-lo a sair do casulo ao nomeá-lo capitão para o último jogo da fase de grupos, diante da Grécia. O jovem astro teria de, então, arengar os companheiros antes da entrada em campo. Algo que o preocupou durante alguns dias. Juan Sebastián Veron, seu colega de quarto, lhe disse para não se torturar. “Fale o que estiver em seu coração”, recomendou.
No momento de abrir a boca no túnel de acesso ao gramado do estádio Oeter Mokaba, em Polokwane, Messi gaguejou, balbuciou algumas palavras e a Argentina foi para a partida que seria vencida por 2 a 0.
“É mais fácil marcar uma audiência com Deus do que fazer Leo atender ao telefone”, definiu Maradona.
A ideia era ir até La Bombonera, mas desta vez eu já esperava o táxi não me levar até o endereço exato. Quando o motorista parou o carro na esquina da Praça Colômbia com a Brandsen, não perguntei nada. Apenas abri a porta e saltei para fora.
O movimento não era o mesmo de uma partida, embora existisse uma prestes a ser jogada. Mesmo a centenas de metros de distância do estádio, no cruzamento da avenida Regimento de Patricios, era possível ouvir a batida do bumbo. No número 805 da Brandsen, em uma das entradas da cancha, estavam concentradas as homenagens a Maradona.
Não eram diferentes das que foram feitas em outros lugares de culto ao 10, como Paternal, Villa Fiorito, Segurola y Habana. Fotos, cartazes, cartas, camisas e algumas velas. Naquele domingo em que o Boca Juniors enfrentaria o Newell’s Old Boys (dois ex-times de Diego), parte das lembranças deixadas no local haviam sido retiradas pelo clube. Como o acesso ao interior do estádio era proibido, foram colocadas grades para evitar a aproximação de torcedores.
Entre todas as partidas na Argentina que renderiam homenagens a Maradona, aquela deveria ser a mais especial. Era o primeiro jogo do Boca, o time que ele disse ver ganhar ser tão gostoso quanto o beijo de dona Tota. Se o Dez era de todos os argentinos, era mais ainda da gente de azul e ouro.
Os comércios ao longo da Brandsen estavam abertos, à espera do faturamento no meio daquela pandemia que fez desaparecer as multidões que frequentavam a região a cada domingo. As lojas ao redor do estádio que ofereciam indumentárias do clube colocavam em destaque camisas retrôs de 1981, ano em que o craque vestiu as cores do Boca ou qualquer lembrança com a imagem dele. Próximos ao portão, cerca de 100 pessoas cantavam músicas em homenagem a Maradona e pulavam no embalo do bumbo da 12. As músicas também eram as mesmas entoadas em outras festas populares. Latas de cerveja passavam de mão em mão e de boca em boca apesar do risco do Covid-19. Mesmo os que estavam de máscara, as tiravam do rosto para dar um gole.
“Foi aqui que Diego disse que la pelota no se mancha. La Bombonera era a casa dele. Alguma homenagem tinha de ser feita pela torcida. Estou triste porque isso aqui deveria estar cheio de gente hoje. Tem menos de mil pessoas. Ele merecia mais”, reclamou o torcedor que se identificou apenas como Andrés. Disse não poder dar seu sobrenome. Não via a pandemia como justificativa para a torcida do Boca Juniors ficar em casa naquele dia e não ir ao estádio.
“Era só colocar máscara e vir. Olhe para mim. Eu estou de máscara, não estou? E estou aqui”, completou ele que, minutos antes, havia recebido uma lata de um colega, desprotegido a boca e bebido a cerveja.
Andrés tentava chamar as pessoas que estavam em volta, na calçada, para se juntarem a eles nos gritos e cantos para Diego. Várias cantavam junto, mas à distância. Aquilo para ele não era o bastante. No momento de dor, a torcida do Boca Juniors deveria mostrar unidade e isso significava proximidade física. A maioria que recebeu o chamado de Andrés teve a sabedoria de ignorá-lo.
Equipes de TV estavam preparadas. Os canais de esporte do país enviaram repórteres para entrar ao vivo. Os estrangeiros gravaram as imagens que seriam mostradas ao redor do mundo nas horas seguintes. O pensamento de torcedores como Andrés era sobre a necessidade de fazer um papel bonito. Em nome de Maradona e do Boca Juniors.
Era como se fosse preciso haver uma demonstração de força. Fora do velório, na Praça de Maio, a barra dividiu espaço com outras, principalmente a do Gimnasia y Esgrima La Plata. O féretro, antes disso, havia passado pela Paternal, o estádio mais próximo da funerária e onde Diego havia iniciado a carreira. Era a vez da banda bostera mostrar algo.
Ameaçava voltar a chover, o que não pode ser desprezado como possível fator a afastar pessoas que pretendiam ir à porta de La Bombonera. Ao meu lado, dois torcedores que pareciam estar na casa dos 60 anos comentavam sobre aquele que era talvez o mais célebre gol de Maradona pelo Boca Juniors. Marcado em 1981, na goleada por 3 a 0 sobre o River Plate, o jogador mostrou, aos 21 anos, a maturidade de um veterano para dominar a bola na área, driblar Pato Fillol e tocar para o gol. A imagem ficou célebre pelo flash de um fotógrafo no instante em que Diego empurra para a rede. Outro fotojornalista quer correr ao lado dele na comemoração, mas escorrega e desaba no chão.
Para eles, o que diferenciava Maradona dos outros jogadores era o tórax avantajado, robusto. O que no Brasil chamaríamos de peito de pombo. Isso lhe daria, segundo esses torcedores, um centro de gravidade diferente, que possibilitaria movimentos raros em um campo de futebol. Era uma teoria interessante e mais original do que as que nos acostumamos a ouvir.
Os grupos começaram a se dispersar. Não foram embora, mas procuravam televisores ligados para que pudessem ver o jogo. A coincidência era o Boca Juniors, o time do coração de Diego, enfrentar o Newell’s Old Boys, o clube que lhe fez mais tocante homenagem no périplo maradoniano pelos estádios argentinos como treinador do Gimnasia. Até então, o confronto era válido pela Copa da Liga Profissional. Dias depois passaria a ser a Copa Diego Armando Maradona.
Fora de La Bombonera não havia mais nada a fazer. Foi no caminho de volta, por um vídeo no celular, que vi as imagens do gol de Cardona e a comemoração em frente ao camarote de Diego, os jogadores perfilados a baterem palmas para Dalma, sentada com as mãos na cabeça, a se acabar de chorar.
“Que coragem tem essa mulher! Não há como negar que é filha de Maradona”, admirou-se o recepcionista do hotel na Corrientes, ao perceber o que eu assistia na tela do telefone.
*
“É André?”
“Sim.”
“André Catimba?”
“Ele mesmo. Quem é?”
“Sou Alex Sabino, jornalista. Estou em Buenos Aires por causa da morte do Maradona e você foi o primeiro companheiro de equipe brasileiro da carreira dele. Poderíamos falar alguns minutos sobre Diego?”
“Claro que sim. Triste o que aconteceu, não é? Sessenta anos... Muito jovem. Triste demais.”
“Como soube da morte dele?”
“Estava em casa, em Salvador, quando minha irmã me ligou para perguntar se eu sabia quem tinha morrido. Achei que era alguém daqui, não imaginava que poderia ser o Diego. Tomei um susto. Como é que pode?”
“Fazia tempo que vocês não se falavam?”
“Bastante. A última vez foi em 1991 ou 1992. Eu era empresário do Charles, lembra dele? O atacante que era do Bahia. Na época, ele estava no Cruzeiro e o Diego me ligou para ajudar a levá-lo para o Boca Juniors. Depois disso, nunca mais nos falamos. Eu ainda não acredito, sabia? Não é possível ele estar morto. Imagino como estão as pessoas em Buenos Aires.”
“Bem abaladas, André.”
“Eu imagino, eu imagino. Desde muito jovem ele era diferente dos outros.”
“Em que sentido?”
“Jogamos juntos em 1980. Tinha 19 ou 20 anos e havia sido campeão mundial de juniores. A pressão em cima dele e a expectativa já eram enormes. Exageradas para um menino. Pô, com 19 anos o jogador ainda está em formação. Mas Diego encarava isso muito bem. Era tranquilo até demais. Não se deixava levar pela fama, pela bajulação das pessoas. Tratava todo mundo bem, todos eram iguais. Aquilo me impressionou. Não era de conversar fiado, como é muito comum entre os jogadores no Brasil.”
“Como podemos chamar essa característica que você mais se recorda do Maradona? Simplicidade?”
“Ah, sim. Não tinha estrelismo. Naquela época era um garotão, muito alegre, muito dado. Não tinha maldade. Estava sempre na dele. Só não podia ver um rabo de saia. Aí ele se empolgava, ha ha.”
“Ele gostava de sair à noite?”
“E quem não gosta? Tinha gente no Argentinos Juniors que pegava no pé dos jogadores que iam para bares, boates, mas no caso do Diego, não. Era quem tinha passaporte para fazer o que queria e ninguém mexia com ele em porra nenhuma. Gostava de uma cerveja e um vinho. Ninguém falava nada porque dentro de campo, dava conta. Resolvia.”
“A lembrança que você tem dele na época era de um jogador que viria a ser um dos melhores da história?”
“Já sabia que era craque. Ele tinha todo o talento e muita vontade. Jogava com a bola no chão. Quando chegava no pé dele, colava. Ninguém tirava. Lembro de lances em que ele vinha receber do goleiro na nossa área e saía costurando, driblando todo mundo pelo lado direito. Um fenômeno!”
“Lembra de como chegou ao Argentinos e da primeira vez que se encontrou com Diego?”
“Eu pertencia ao Grêmio e estava emprestado ao Bahia. Mas a situação não era das melhores para mim lá. Apareceu um empresário uruguaio chamado Juan Figer e disse que poderia me levar para um clube de Buenos Aires. Perguntou se eu tinha interesse e respondi que sim. Ele arranjou tudo e no meu primeiro treino na Paternal conheci o Maradona. Já era um jogador muito famoso por causa da Copa do Mundo de juniores de 1979.”
“Quanto tempo ficou no clube?”
“Oito meses. Não foi tanto tempo assim.”
“Por quê?”
“Fui contratado para jogar o Campeonato Argentino. Mas teve muito racismo. Foi uma situação bem chata.”
“Nos jogos?”
“Sim, nos jogos e também às vezes na rua. Estava em um hotel perto da Nove de Julho e ia almoçar em um restaurante que estava próximo. Acontecia de ouvir uma graça, um xingamento. Discuti muito, briguei algumas vezes. Chegou o momento em que achei melhor ir embora.”
“E nas partidas?”
“Aconteciam ofensas também. Quando eu pegava na bola começavam os gritos de ‘macaco’. E vou te falar: o único que me defendia era o Maradona. Quando iniciavam os xingamentos, ele ia lá e pedia para a torcida parar. Ele foi a única pessoa que me defendeu. Um sujeito fantástico.”
“Nas vezes em que conversou com Diego depois disso, relembraram essas histórias?”
“Do racismo?”
“É.”
“Ah, não. Estava no passado. Tínhamos coisas mais interessantes para conversar.”
“Se eu te perguntar que imagem fica para você de Diego Maradona, o que responderia?”
“Se eu falar apenas do jogador, serei injusto com a pessoa. Se falar apenas da pessoa, serei injusto como jogador. Diria que Maradona era um craque com a bola no pé. E fora de campo era tão bom quanto era dentro.”
“Obrigado, André. Fico feliz em conversar com você.”
“Por nada. Sempre há a rivalidade entre Brasil e Argentina, mas Diego me disse que gostava de jogar com brasileiros e que a inimizade era apenas nos jogos de seleções. Grande sujeito. Fazemos aniversário no mesmo dia, 30 de outubro. Se pudesse, teria tentado falar com ele. Mas acho que não conseguiria.”
“Seria difícil. Nem os companheiros que teve na seleção tiveram sucesso em conversar com ele nos últimos tempos.”
“É verdade? Que pena, rapaz. Tudo bem. Ficam as boas lembranças. Gostei muito de ter conhecido o Maradona. Tenho recordação muito boa dele e a atitude bacana que teve comigo, de me defender quando outras torcidas foram racistas. Vou sempre ter isso na cabeça.”
Minutos após a conversa com André Catimba, histórico atacante do Grêmio e o primeiro brasileiro a dividir elenco com Diego, o médico Javier Roimiser, responsável pelo departamento de história do Argentinos Juniors, me mandou os números do jogador pelo clube da Paternal.
André havia atuado em cinco amistosos, todos com Maradona também em campo. Não fez nenhum gol.
*
O capítulo 9 será publicado em 3 de fevereiro
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