Capítulo 12 (parte dois)
Terça-feira, 1 de dezembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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A sensação que o Estádio del Bosque causa no visitante de primeira viagem é a mesma que Diego Maradona teve ao descer do veículo SUV na tarde ensolarada de 8 de setembro de 2019.
“Que hermoso lugar!”, disse ele, relembravam os funcionários Em seguida, comentou em voz alta, para quem estava ao redor, que nem bem chegara e já se sentia bem. Logo atravessou o lobo inflável, passagem para pisar no gramado do Juan Carmelo Zerillo e ser saudado por cerca de 30 mil torcedores.
Aquilo era tão improvável, mas ao mesmo tempo tão Maradona... Assim que surgiram os primeiros boatos de que ele poderia ser técnico do Gimnasia y Esgrima La Plata, muitos não deram atenção. A ligação de Diego com o clube era nenhuma. Mas virou verdade. E quando perguntado o motivo para estar ali, respondeu ser pela amizade com o presidente Gabriel Pellegrino. No meio do caminho, quando o dirigente ameaçou sair, o nome mais famoso da história do clube disse que iria embora junto.
“No tengo un mango y entro igual”, diz a pintura em uma das paredes laterais do estádio, para citar um espírito com o qual o treinador se identificou logo de cara. Uma equipe que se define da classe obrera, sofrida, em busca da vitória redentora que nunca chega.
Quase uma semana após a morte de Diego, os empregados do Gimnasia pareciam ansiosos para falar sobre ele. A citação do seu nome arranca sorrisos e histórias. Ainda está lá a faixa colocada por torcedores próxima ao portão principal, o que ele usava para entrar em dias de jogos ou nos esporádicos treinos a que comparecia. Maradona está pintado ao lado de dona Tota com a frase: “Maria criou Jesus e Tota criou Deus”.
Permanecem resquícios de velas, quase todas apenas tocos já queimados, a cera espalhada pelo chão, parecido com o cenário da portaria do edifício em Segurola y Habana. Não há quem passe pelo local sem pelo menos prestar atenção à pintura.
Alguns param por alguns instantes e ficam em silêncio.
A última casa futebolística de Maradona está encravada dentro do parque público Paseo del Bosque, no noroeste da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires. Está na avenida 60, em intersecção da calle 118. Juan Carmelo Zerillo foi o presidente no ano em que o Gimnasia conquistou seu único título da primeira divisão, em 1929. O clube vive desde então à sombra do seu rival de cidade, o Estudiantes, mais conhecido, rico e vencedor, cinco vezes campeão argentino, quatro títulos da Libertadores e dono de um Mundial.
O espírito de “nós contra o mundo”, que coube tão bem em Diego, especialmente com a camisa da seleção, é encarnado pelo torcedor do Lobo, sempre a acreditar que seu time foi privado de vitórias e troféus por ações externas, não pelo futebol. Para eles, o clube representa o verdadeiro futebol, ao contrário do Estudiantes, “que vive na mentira”, como disse o narrador partidário Alberto Raimundi durante a transmissão de um clássico no Estádio Único de La Plata em que Saúl Laverni fez um combo perfeito: marcou falta inexistente para o Estudiantes, expulsou um jogador do Gimnasia e, na cobrança, saiu o gol que seria de empate. O Gimnasia gosta de se ver como dono do jogo bonito em contraponto ao Estudiantes que tinha Carlos Bilardo no meio-campo e Osvaldo Zubeldía no banco de reservas. O chamado de anti futebol. Eficiente e vencedor, mas nada belo de assistir.
“Isso foi coisa de gente da capital que não se conformava porque uma equipe de fora de Buenos Aires era capaz de ganhar todos os campeonatos”, defendeu-se Bilardo para o autor, em entrevista antes da Copa da Rússia. Entre todas as ofensas que o campeão mundial de 1986 recebia, era esta a que mais lhe doía: ser identificado como algo estranho ao futebol, um mestre da retranca.
Tal qual o último time de Maradona, Bilardo era de La Plata, mas cria do Estudiantes, onde fez o trabalho como técnico que o levou para o comando da seleção argentina: a conquista do Metropolitano de 1982. Foi a chave para seu caminho cruzar com o do camisa 10 e os dois viverem juntos os melhores momentos de suas vidas. No momento em que essas palavras são escritas, o antigo treinador convive com doença degenerativa que se assemelha ao Alzheimer
A vizinhança que encantou Maradona ao chegar pela primeira vez ao clube (e que lhe arrancaria comentários sobre a beleza do lugar) é o passeio do bosque René G. Favolaro, o maior parque de La Plata e um dos pontos turísticos mais importantes da região muito antes dos tristes acontecimentos de 25 de novembro de 2020. Com uma extensão de 60 hectares, está entre as calles 50 e 60, 1 e 122.
“Todos adoram falar sobre Diego e o período dele aqui foi um dos mais especiais da minha vida. Quando chegar no céu e me encontrar com Deus, falarei sobre o que vi de Maradona. Mas não posso dar entrevistas. Ordens superiores”, disse um empregado do clube. Era o mesmo discurso de outros naquela tarde. Era uma satisfação visível no rosto deles comentar sobre o “maior de todos”. Mas Pellegrini havia dado ordem para que ninguém conversasse com a imprensa. Havia a preocupação com o que havia acontecido naquele mesmo estádio em 30 de outubro, dia em que Diego completara 60 anos.
Os funcionários do Gimnasia y Esgrima La Plata receberam um aviso apressado naquela sexta-feira: evitar falar com Maradona.
Consideraram um pedido estranho porque Diego, mesmo nos dias de pior humor, sempre fazia uma brincadeira e os tratava como se fossem jogadores da equipe, integrantes do elenco. Alguns minutos depois, escoltado por policiais e em uma caravana de carros, o técnico chegou ao estádio Juan Carmelo Zerillo antes da partida com o Patronato, pela Copa da Liga Profissional, em dezembro de 2020, rebatizada pouco depois como Copa Diego Maradona.
No veículo utilitário branco que o trazia, estavam também o filho Diego Fernando Maradona, de sete anos, e a mãe Veronica Ojeda. Três funcionários do estádio disseram logo terem percebido haver algo errado.
Ele precisou do amparo de um dos seguranças da agremiação, não reagiu quando houve gritos de torcedores que estavam na avenida 60, vizinha ao campo (e ele sempre acenava) e caminhou de forma mais lenta que a habitual, apoiado em quem estava próximo.
Os repórteres de TV receberam a mesma ordem: não falem com Maradona. Não o entrevistem. Era uma solicitação inusitada porque o astro sempre falava antes e após os jogos. Em partidas do Gimnasia, não havia outro assunto possível. Ainda mais no dia em que ele completava 60 anos.
O colombiano Johan Carbonero, que faria um dos gols da vitória do time por 3 a 0 sobre o Patronato, se aproximou para parabenizá-lo. Outros jogadores fizeram o mesmo, apesar da ordem para evitar conversas. Lucas Licht, comentou com os roupeiros que Maradona apenas balbuciou algumas palavras e foi impossível entender o que disse.
No seu último jogo, ele passou 20 minutos sentado à beira do campo e depois pediu para ir embora. Aquilo surpreendeu funcionários e atletas quando chegaram ao vestiário, no intervalo. A explicação dada foi apenas que Maradona “precisava descansar”. Questionados sobre observação feita por outras pessoas, de que ele bebia muito naqueles tempos, empregados da agremiação e um jogador disseram ao autor jamais terem percebido nada de anormal no comportamento do treinador. Ele apenas falava das dores que sentia. Todos estranharam vê-lo a ir embora tão cedo. Quem teve a chance de lhe dizer algo pela última vez e não o fez, por causa das recomendações de se manter afastado, se arrependeu.
“Sabendo o que sei hoje, com a consciência que seria a última vez que o veria com vida, eu teria tentado pelo menos lhe dizer um muito obrigado por tudo o que fez por todos nós, argentinos”, diz um funcionário da portaria.
Uma das lembranças mais marcantes na sede do Gimnasia, no estádio e nas redondezas é o quanto Maradona não despertava apenas respeito e admiração, como geralmente acontece com os ídolos. Era amor. Quando ele estava presente, os jogadores, sem exceção paravam o que estavam fazendo para ir cumprimentá-lo, não com um aperto de mão, tapa nas costas ou abraço. Sempre com beijo. Os empregados se lembram de um Maradona que não ignorava ninguém, nunca irritado o bastante para não trocar algumas palavras, participar de um vídeo para um parente distante de alguém que lhe pedisse ou um áudio qualquer.
Uma faxineira disse que Diego havia gravado, por iniciativa própria, uma mensagem para o filho dela. Disse que o garoto deveria ter orgulho da mãe que deixava brilhando todos os lugares que limpava.
“Naquele dia, eu fui para casa chorando de emoção”, se recorda.
Lágrimas que o próprio Maradona derramou no momento em que entrou pela primeira vez ao Paseo del Bosque. Subiu em carro de golfe para passar diante da multidão que o adorava. De maneira sorrateira, o motorista lhe entregou uma camisa da seleção argentina para ser assinada. Diego assentiu e foi o único momento em que sorriu. Com os joelhos sempre dobrados e o corpo curvado, tentou acompanhar o público que pulava e cantava que quem não saltava, era um inglês.
“O amor que os argentinos têm por um ídolo nada supera. Hoje me senti no céu”, disse, com o microfone na mão.
Pouco depois se tornou consenso, mesmo entre os dirigentes do futebol do país, que ele não deveria estar ali naquele dia 30 de outubro. Mas seria feita uma homenagem da AFA pelo seu aniversário. Marcelo Tinelli, presidente da liga e apresentador de TV mais conhecido do país, era amigo de longa data de Maradona e estava presente.
Rocio Oliva disse que horas antes ele havia recebido a visita da filha Giannina, acompanhada do neto Benjamín. Ela ficou alarmada ao ver o estado de abatimento do pai e pediu que ele não fosse ao estádio. Veronica Ojeda e o advogado Matías Morla teriam insistido para que o Dez estivesse presente na homenagem. Morla nega e disse ter sido contra. Veronica não comentou.
Depois da morte de Maradona, sua aparição naquele dia no estádio do Gimnasia, a última vez que pisou em um campo de futebol, se tornou cena ainda mais triste. O rosto injetado, a incapacidade de andar sozinho e a roupa com a logotipo da empresa de petróleo YPF viraram um símbolo do uso que teria sido feito do ídolo para proveito de terceiros. Quase ao mesmo tempo, sua conta oficial no Instagram fazia propaganda de uma marca de cigarros.
A lembrança dos funcionários do Gimnasia era de um dia alegre, aniversário de Diego. Foi comentada a possibilidade de organizarem uma festa surpresa, mas esta foi descartada, pelo menos para aquela data. Sem público nas arquibancadas por causa da pandemia da Covid-19, Maradona seria saudado por dirigentes, receberia uma placa e o patrocínio da YPF seria mostrado. Marcelo Tinelli e Claudio Tapia sairiam nas fotos.
“O futebol argentino te deve muito”, sussurrou o presidente da AFA no seu ouvido.
“Quando o carro estacionou, todos ficaram felizes de vê-lo mais uma vez. Mas quando olhei o seu rosto... Estava claro que havia algo errado”, disse um dos empregados do Gimnasia que estavam no local quando a SUV que o levou ao Bosque chegou.
Maradona se movimentava devagar e quem o via quase todas as semanas notou seu olhar distante e sem vida, como se estivesse entupido de medicamentos.
As pessoas do Gimnasia não sabiam, mas Maradona estava em crise por aqueles dias. Um dia antes do seu aniversário, esteve com seu auxiliar Sebastián Méndez. Queixou-se com tristeza que não conseguiria aquele que era seu maior desejo ao chegar aos 60 anos: reunir todos os filhos sob o mesmo teto. Também chorou ao falar das saudades que sentia de dona Tota e don Chitoro. Para quem estava todos os dias no Bosque e conhecia a rotina do clube, o treinador era Méndez. Diego era o consultor e a referência no banco de reservas. Não que o auxiliar se importasse com isso. Para quem acompanhou a passagem da dupla pelo Bosque, Sebastián tratava Diego como se fosse seu pai.
“Mesmo depois de tanto tempo, para mim é difícil falar dele. É uma perda que sinto todos os dias. Ao mesmo tempo, ter convivido com Diego foi um dos maiores presentes que recebi na vida. Gostaria de ter feito mais para ajudá-lo. O que poderia lhe dar era amor. Foi o que fiz”, afirma ele, que depois seguiu a carreira como técnico.
Méndez acha graça da percepção de que Maradona não comandava de verdade ao time. Contesta a opinião, embora não tenha como negar que o astro não estava na maioria dos treinamentos.
“Ele não precisava estar. Como alguém pode dizer que sabe mais de futebol do que Diego Maradona? Isso não existe. Pelo jeito que o jogador entrava no campo, Diego já compreendia tudo. Só de olhar, sem precisar sequer que o atleta tocasse na bola. Um conhecimento assim não tem preço”, completa.
O assistente sequer gosta de falar sobre o que ele lhe agregou de conhecimento no futebol. Acha secundário. O que ficou mais foi o Diego das anedotas. Ele não foi o único a dizer ao autor que Maradona sabia contá-las como ninguém, com o tempo certo da comédia, interpretando os personagens. Nenhum tão bem quanto Bilardo. Uma das melhores é de quando Narigón foi à casa do craque em Nápoles, antes da Copa de 1990, para dizer que Claudio Cannigia não seria convocado.
“Está bem, Carlos. Então serão dois a não ir. Cani e eu”, respondeu o Dez, que em seguida, ao recordar a história, fazia os trejeitos de Bilardo de arrumar a gravata quando se sentia incomodado.
No dia da homenagem, todos na casa de Maradona perceberam que ele não tinha condições de ir para o estádio. Leopoldo Luque e o fisioterapeuta Nicolás Taffarel conversaram sobre o assunto. O médico alertou Matías Morla.
Era mais uma contradição na vida do craque. Talvez uma das últimas. A de que alguém que se orgulhava tanto de fazer apenas o que tinha vontade, sem dar tanta importância para a opinião dos outros, tenha aceitado se arrastar até o Bosque naquela tarde para um jogo tão sem importância que foi embora antes do final do primeiro tempo.
Se foi naquela tarde que se iniciou o ciclo final da vida de Diego Maradona, o Gimnasia ao menos pode se orgulhar de ter lhe dado a chance de, pela última vez, ter o que mais precisava para continuar vivo: sentir o amor do povo argentino.
“Ele se alimentava daquilo e nós nos alimentávamos da presença dele. Ter Maradona como técnico foi uma experiência que mudou a vida de todos os jogadores”, diz Lucas Licht.
A lembrança mais forte para o lateral, que se recorda disso com sorriso nos lábios, meses depois da morte, era como ele, com a bola nos pés continuava, apesar de todas as limitações físicas, a mostrar quem era. Fosse na capacidade de bater na bola com um efeito que ninguém mais no elenco conseguia imitar, fosse no prazer infantil de enfiar a bola por entre as pernas de desavisados funcionários. Além dos beijos nos rostos.
“Era sempre a mesma coisa. Dava os beijos e chamava a todos de papi”, completa, para rir em seguida.
Integrantes da comissão técnica têm várias histórias de torcedores que passaram horas, às vezes a noite inteira, próximos a portas de hotéis, na rua, na esperança de vê-lo. Colaboradores da sede do clube e do estádio também comentam sobre gente que passava horas e voltava por vários dias na esperança de ter algum contato, mesmo que mínimo, com o ídolo.
No meio da conversa apoiado no muro ao lado a entrada do clube, um funcionário para de falar e aponta discretamente para o outro lado da avenida:
“Está vendo aquele lá? Aquele em cima da bicicleta. Estava aqui fora quando Diego chegou pela primeira vez. Já apareceu aqui várias vezes tentando vê-lo. Nem sei se é torcedor do Gimnasia. Mas em dias de partidas, sempre estacionava a bicicleta e esperava Maradona entrar. Talvez até tenha conseguido falar com ele”, indica.
O sujeito parecia ter menos de 30 anos. Seu nome era Óscar. Sim, ele sempre aparecia em frente ao estádio em datas dos jogos. Não, nunca havia conseguido falar com Maradona. Nas poucas vezes que o viu, gritou seu nome, mas foi ignorado ou não foi ouvido.
“Ele estava sempre cercado por seguranças, com gente querendo sua atenção ou lhe pedindo alguma coisa. Era difícil. Mas eu não perdi a esperança”, disse.
Óscar também tinha um sonho. Queria pedir a Maradona que gravasse um vídeo e mandasse um abraço para o seu pai, Carlos. “Eu sempre gostei dele, claro. Era o ídolo de todos nós. Mas para meu pai... Diego era realmente deus. Se conseguisse uma mensagem de Maradona, se Maradona dissesse o nome dele, nem sei dizer qual seria sua reação.”
Óscar nunca contou ao pai suas intenções porque sabia ser difícil e não queria criar expectativas. Se conseguisse, seria surpresa. Como não teve sucesso, nem mencionou o assunto.
Sua penúltima tentativa foi na véspera do aniversário do ídolo. Diego deveria ir ao bairro de La Palitto, em San Justo, para a inauguração de campanha solidária chamada “La Diez del 10”, que financiaria obras sociais na região e reformaria um campo de várzea. A Cruz Vermelha distribuiu materiais de higiene pessoal e álcool gel para a população carente. Óscar esperou por mais de uma hora pela presença do ídolo do seu pai, mas foi embora sem vê-lo. Quem o representou foi Matías Morla. Um vídeo de Maradona mandando uma mensagem para os moradores foi exibido. A explicação foi que ele estava isolado de maneira preventiva por ter tido contato com uma pessoa suspeita de estar infectada pelo coronavírus. A verdade é que ele não estava bem para ir.
O torcedor tentou novamente no dia seguinte, antes do confronto contra o Patronato. Esperou a chegada do veículo com o treinador, mas só percebeu que havia saído da SUV pela movimentação das pessoas. Não o viu. Voltou ao final do jogo. Achou estranho porque não notou sua saída. Depois soube que ele havia se retirado ainda no primeiro tempo. Apenas dias depois, com a internação e suas consequências, tudo fez sentido.
O torcedor confessa jamais ter entrado no estádio.
“Por que não?”
“Porque não quis.”
“Não tinha dinheiro para o ingresso?”
“Não! Claro que tinha”, reagiu indignado. “Não é isso.”
Houve o silêncio. A bola quicava. Ele queria falar mas, ao mesmo tempo, achava que não devia. Precisava de um empurrão.
“E qual o motivo?”
Óscar olhou para os lados para se certificar não haver ninguém próximo. Estava só. Mesmo assim, baixou um pouco o tom de voz.
“Sou pincha. Jamais pagaria para ver um jogo deles. Venho aqui só por causa do velho”, explicou, se referindo ao pai e citando o apelido do Estudiantes.
“Seu pai nunca quis vir ver Maradona?”
“Não. Faz dois anos que ele não sai da cama.”
Não houve tempo para perguntar o motivo. Óscar nem se despediu. Trepou na bicicleta e foi embora.
“Então... Ele é torcedor do Gimnasia?”, quis saber o funcionário que observou de toda a conversa.
“Claro”, respondi. “Fanático.”
A resposta o satisfez tanto que ele continuou a falar sobre como Diego mudou a história do Gimnasia y Esgrima.
“Dizem que não temos títulos. Que título pode ser maior do que ter Diego Armando Maradona?”, questionou.
Nos dias que se sucederam à morte, torcedores se reuniram no centro de La Plata e, com flores nas mãos, desfilaram pelas ruas. Não era um clima de tristeza e, sim, de festa. Uma celebração à vida de Diego que atravessou o Bosque, cruzou o caminho do estádio do Estudiantes e chegou ao Juan Carmelo Zerillo, última morada futebolística do ídolo.
No trajeto, cruzaram o caminho da Igreja São Francisco de Assis, onde se oficializou outro dos mais importantes casos de amor da Argentina: o casamento entre Juan Domingo Perón e Eva Duarte, em 10 de dezembro de 1945. Uma união que é mais relevante pelos sentimentos deles com o povo argentino do que um para o outro. Maradona sempre disse ser peronista, assim como seus pais.
Nos seus termos, como sempre foi em sua vida, para o bem e para o mal, Diego se reencontrou com a Igreja Católica no final da vida. A mesma que contestou algumas vezes. Como quando pediu que as riquezas do Vaticano fossem leiloadas para matar a fome dos miseráveis.
Meses antes de morrer, ele foi à Paróquia Maria Auxiliadora de Berisso, fundada em 1917, mais pacata, menos visitada do que os templos religiosos conhecidos de La Plata, mas muito bem cuidada. Havia conhecido o sacerdote Gustavo Rubio em uma visita feita pelo religioso à sede do Gimnasia e se interessou em visitar a igreja.
A lembrança de Diego traz expressão de alegria ao rosto de Rubio. Ele afirma ter se surpreendido com o conhecimento que alguém tão mundano tinha dos sacramentos e da liturgia. Maradona pediu a bênção.
“Ele me contou que esteve com o Papa Francisco, no Vaticano. Eles se gostavam muito. Diego tinha enorme respeito por Sua Santidade. Conversamos por algum tempo e ele reconheceu os problemas que havia tido na vida, os pecados. Mas fez questão de dizer que também havia feito coisas muito boas. Então, havia um balanço. Como sempre acontece na existência de todos. Mas ele, claro, era Diego Maradona”, relembra.
A Rubio, o técnico do Gimnasia disse sonhar em ter paz na vida. Como se estivesse sempre buscando aquilo, mas apenas no ideal. Porque muitas vezes procurou tudo, menos a opção mais pacífica de viver. Uma incoerência que pode ser notada no vídeo da entrevista no avião que o levava de Barcelona para Nápoles, em 1984. Disse querer paz. Estava a horas de mergulhar no olho da tormenta.
“Apesar de tudo, ele me disse se sentir grato. Era uma pessoa agradecida pela vida que teve e pela alegria que deu às pessoas por meio do futebol”, constata o sacerdote. “O futebol é um ciclo. Como é a vida.”
Tal qual Zaratustra de Nietzche, a escrever que tudo quanto é reto mente porque “a verdade é sinuosa e a própria vida é um círculo.”
Os 60 anos de Diego Armando Maradona foram sempre a bola, por mais que depois tenham abarcado tantas outras coisas. No futebol ele começou, rodou o mundo, e acabou no mesmo lugar. Como na alegoria do barrilete descrita por Guillermo Blanco.
Todas as críticas àquela última visita ao estádio no Bosque foram merecidas. Era mais uma vez a ganância de poderosos a se aproveitarem de sua imagem, mesmo que debilitada. A necessidade de satisfazer patrocinadores. O dinheiro envolvido. Mas como na vida tudo quanto é reto mente, talvez Diego Maradona merecesse uma última visita, entrar mais uma vez em um estádio. Oscar Ruggeri definiu que, quando doente, “Diego era a pessoa mais solitária do planeta.” Mas em um campo de futebol ele poderia ser qualquer coisa, menos solitário.
“Quando piso no gramado, se vão os problemas, tudo vai embora.”
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O caítulo 13 será publicado em 20 de março.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com


