Capítulo 11 (parte dois)
Segunda-feira, 30 de novembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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Não importa o lugar. Mesmo que fosse território considerado sagrado, Maradona era capaz de dominar a imaginação de quem estivesse ao redor. Uma das histórias mais lembradas por jogadores que fizeram parte do elenco na Copa de 1990 aconteceu em Israel antes de amistoso que era pura superstição de Bilardo. O elenco fez passeio para conhecer o Muro das Lamentações. A visita quase não foi possível porque as pessoas que estavam na região não desejavam mais ver a atração. Queriam Diego.
A partida foi pedida pelo técnico porque, às vésperas da campanha do título de 1986, a Argentina havia atuado em Israel. O mesmo aconteceria novamente antes dos torneios de 1994 e 1998. Só não foi repetido em 2018 porque protestos causados pelo conflito com a Palestina fizeram a AFA cancelar a viagem.
Na mesma excursão em 1990, o ônibus que levava atletas e familiares para o treino era seguido por outro com jornalistas e pesada escolta policial. No meio do caminho, o comboio parou sem aviso prévio. Aquilo causou apreensão nos repórteres. Por que o veículo com os jogadores da seleção pararia no meio da estrada de repente?
Faltava o leite para a mamadeira de Dalma Maradona, então com três anos. Diego disse que teriam de estacionar para que a menina pudesse se alimentar. Foi atendido, claro.
No livro El Partido, de Andreas Burgo, o capitão da seleção pede para seus companheiros pararem de cantar música que dizia que “pelas mãos de Maradona, todos a volta (olímpica) vamos dar”. Ele se levanta e diz que ganhavam ou perdiam juntos, como um grupo. Isso não significava desconhecer seu valor e importância no mundo.
Lalo Maradona se lembra de quando o irmão andava pelas ruas de Havana e foi visto por um turista alemão, que correu em sua direção. Ele insistia em presentear Diego com um relógio Rolex de ouro.
“De jeito nenhum, maestro. Os luxos da vida eu dou a mim mesmo”, teve de repetir três vezes.
Para não decepcionar o fã, fez-lhe um agrado.
“Vou te dar um presente que não vai esquecer.”
Pegou o celular do alemão, entregou a Lalo, abraçou o turista e tirou uma foto.
Histórias parecidas com essa divertem a Guillermo Blanco, o primeiro assessor de imprensa de Diego, embora ele conteste este título. A história é bem mais complicada do que essa.
Naqueles dias, a imagem do jogador que conheceu quando criança era constante em sua cabeça. O jornalista não acreditava que isso mudaria pelos anos seguintes.
“Diego sempre será presente. Nunca será passado.”
Por causa do jogador que conheceu antes mesmo de surgir o apelido de Pelusa, o assessor considera ter tido uma vida intensa. Olhar para trás é uma forma de trazer Maradona para o agora, um esporte praticado por milhões argentinos a partir de 25 de novembro de 2020. Mas quase nenhum deles teria tantas lembranças a compartilhar quanto Blanco. Pouquíssimos tiveram tanta convivência com o mito.
Ele se lembra do dia em que conheceu o então menino de 12 anos nos Jogos Evita, em 1973. Reencontrou-se com ele em 1977, quando trabalhava para El Gráfico. Maradona já era profissional e despontava como craque precoce dos Argentinos Juniors. Há a imagem do garoto de 18 anos, em janeiro de 1979, com os braços abertos no gramado do Estádio Centenário, em Montevidéu, a posar para a foto em que seria capa pela primeira vez da publicação futebolística mais tradicional da história da imprensa sul-americana.
Maradona estava em excursão com a seleção sub-20 que naquele mesmo ano seria campeã mundial. Após as fotos, foram à praia de Atlântida, a 45 km da capital.
“Foi quando caminhávamos na areia que me confessou o sonho de conhecer Pelé. Eles se encontrarem pela primeira vez foi produto de uma ideia, um sonho de Maradona”, afirma Blanco.
Era tempo em que Diego dizia que se conhecesse o brasileiro, poderia morrer feliz. Nos anos seguintes, como aponta o professor Ronaldo George Helal, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista na cobertura da imprensa sobre a rivalidade futebolística Brasil-Argentina, a competição não seria entre Pelé e Maradona.
“Até então, a comparação era com Zico. Quando a Argentina vence a Copa do Mundo de 1986 e Maradona joga o que jogou, essa discussão acaba. Começa a aparecer a comparação com Pelé”, ressalta.
É quando começa a relação de altos e baixos entre os dois. O brasileiro dá declarações duvidando da capacidade do argentino de ganhar uma Mundial. As respostas de Diego são sempre mais ferozes, bem ao seu estilo. Como chamar o rival de “marionete da Fifa’ ou dizer que Pelé deixou Garrincha morrer de fome. Uma mentira histórica.
Naquela época, em 1979, conhecê-lo era um sonho manifestado a Blanco, que ficou com aquele pensamento na cabeça por algum tempo.
“Quando voltei para Buenos Aires, propus a matéria para a El Gráfico. Foi aceita imediatamente”, lembra.
No século XXI, uma empresa jornalística independente conseguir um encontro desses, sem qualquer interesse comercial envolvido e não para fazer propaganda de uma marca, seria impossível. Para sorte do jornalista, um ano após da Copa de 1978 era viável, mesmo que complicado. Foi preciso montar toda a logística. O mais difícil era a data na agenda de Pelé. A visita foi marcada para 9 de abril de 1979, uma segunda-feira, no apartamento do brasileiro em Copacabana. Um dia antes, o Argentinos Juniors derrotou o Huracán por 3 a 1 pelo Campeonato Metropolitano.
Maradona saiu do vestiário de Parque Patrícios direto para o aeroporto de Ezeiza. Embarcou acompanhado de Blanco, don Chitoro, Jorge Cyterzpiller e o fotógrafo Ricardo Alfieri.
Pela janela do avião, o argentino admirou a orla carioca quando a aterrissagem estava próxima. A comitiva foi para o Copacabana Palace. O encontro estava marcado para o dia seguinte, ao meio-dia.
“Não foi midiático. Foi algo muito humano, espontâneo, nada programado”, diz Blanco.
Quando a comitiva tocou a campainha, Alfieri tinha a máquina fotográfica em frente ao rosto, o dedo próximo ao botão, pronto para dispará-la. A ideia era que quando Pelé abrisse a porta e abraçasse Diego, a cena fosse registrada para a capa seguinte de El Gráfico.
“Hola, papá!”, disse o anfitrião ao aparecer. Em seguida, abraçou don Chitoro, que ficou tão surpreso quanto todos os outros. Foi uma maneira encontrada por Pelé para romper qualquer protocolo e fazer da reunião algo tão informal quanto possível.
Os dois conversaram por pouco mais de uma hora e, na maioria do tempo, Pelé aconselhou a Maradona. Disse o que deveria esperar da carreira, o que fazer e quando fazer. O argentino estava preocupado com a repercussão de um gol que havia feito com a mão (você está livre para pensar na ironia disso...)
“Não se preocupe. Isso é problema dos árbitros, não seu”, foi a resposta do brasileiro que o argentino adotaria a partir dali.
Guillermo Blanco fica em silêncio para dizer qual foi o momento mais memorável da primeira vez em que dois dos maiores jogadores da história (ou os dois maiores, a depender da sua opinião) ficaram frente a frente.
“Houve um instante em que Pelé toma a mão de Diego e dá conselhos que lhe serviriam até o último dos seus dias. Maradona o olhava como se estivesse encantado.”
É um encontro que está gravado apenas na memória de Blanco, a última testemunha viva do encontro histórico. Não só por ter sido o primeiro entre dois mitos, mas porque poucos anos depois o clima de admiração e harmonia desapareceria. Transformaria-se, ao contrário, em uma das maiores rivalidades da história do futebol. Algo inédito por ser protagonizada por dois jogadores de épocas diferentes e que jamais sequer se enfrentaram.
Quanto mais Diego crescia em campo e deixava de ser promessa para se transformar em realidade, mais Blanco se aproximava dele. Tornara-se amigo de Cyterzipiller, don Chitoro e dona Tota. Conhecia os irmãos e irmãs. Aparecia às vezes na casa da família na Paternal. Foi enviado à Espanha em 1982 para acompanhar aCopa do Mundo que deveria ser para Maradona, o que se tornaria realidade apenas em 1986. Não que ele tenha jogado mal, mas a seleção argentina estava envelhecida e tinha problemas de comando. Ou nas palavras de Julio Grondona, ao se referir a Cesar Luis Menotti: “é o melhor, mas está cada vez mais preguiçoso”.
A imagem que ficou do camisa 10 no Mundial foi um lance de violência: a patada que deu em Batista e resultou em sua expulsão contra o Brasil. A teoria de que aquela seleção era ainda melhor que a de 1978, por ter a mesma base com a adição de Maradona, não se concretizou. As críticas nas páginas de El Gráfico incomodaram a Blanco, que pediu demissão.
“Eles mudaram a linha editorial apenas porque a Argentina perdeu e não concordei com aquilo.”
A relação com Diego estava mais forte no pessoal do que no profissional. O atacante estava vendido para o Barcelona e Cyterzpiller disse que eles precisariam de um jornalista para ajudá-los na Europa. Para conseguir sobreviver, Blanco foi trabalhar em um jornal em Valencia que pertencia a Josep Maria Minguella, o conselheiro do clube catalão e agente de futebol que intermediara a negociação para a compra de Maradona. A ideia Cyterzpiller era rodear seu cliente de amigos para auxiliar na adaptação.
Logo a presença de Blanco na cidade onde estava Diego se tornou fundamental. Ele se mudou para Barcelona e começou a fazer textos para o diário Sport e para a revista Don Balon.
Na lembrança de Guillermo Blanco, tudo parecia perfeito. Ele era o jornalista mais próximo de quem seria o maior jogador do planeta, morava em uma cidade fantástica, estava acompanhado de sua família e o técnico do Barcelona era Menotti.
Pode ser por memória afetiva ou lembranças que escaparam à maioria das outras pessoas, mas para ele, no ano seguinte, início da temporada 1983-1984, o mundo veria o melhor Maradona que já existiu.
“Quando chega Menotti, o Barcelona ganha a Copa do Rei. Mas em 1983, para mim, Diego estava no auge. Nunca mais se viu nada igual. Nas primeiras rodadas do Campeonato Espanhol ele era um assombro. Foi inesquecível. Isso durou até a fratura no tornozelo.”
Maradona conseguiu tornar até uma falta em momento lendário. Em sua autobiografia, conta que fez as pazes com seu algoz Andoni Goikoetxea anos depois. Naquele momento pós-fratura, sua preocupação era não ser operado. Tinha medo da anestesia.
De sua casa em Buenos Aires, décadas depois, o veterano repórter se rende à esperteza do 10 (e de Cyterzpiller) de perceber que era preciso um novo começo depois de todos os problemas em Barcelona e dos conflitos com o presidente Josep Lluís Nuñez. Foi Blanco o jornalista a acompanhá-lo a Buenos Aires para a recuperação da contusão e a constatar, em primeira mão, algo que depois Fernando Signorini colocaria em palavras: quando Diego enfiava uma meta na cabeça, era capaz de qualquer esforço.
“Ele aprendeu a falar italiano antes de mim, antes de todo mundo. Quando queria, a cabeça dele funcionava com uma velocidade incrível”, lembra o preparador físico, sobre a chegada ao Napoli.
Isso continuou verdade mesmo nos piores momentos.
“Quando havia um obstáculo, ele ficava mais forte. Mesmo com a droga rondando, desafiava qualquer limite para se recuperar se tinha um objetivo a curto prazo. Assim que chegou ao Barcelona, teve hepatite e recuperação foi assombrosa porque ele queria estar logo pronto para jogar”, concorda Blanco.
O jornalista é um dos que se lembra ouvir de Diego uma frase que depois repetiria no voo para Nápoles: que viajava para a Itália para ter paz na vida.
Quem analisa a história, vê que a afirmação é risível. Paz foi tudo o que não teve no sul da Itália. Pelo contrário. Poucas vezes o povo de uma cidade amou tanto a um ídolo e quis tanto ter um pedaço de sua imagem quanto na relação entre a população napolitana e Maradona. No verão de 1984, em um voo fretado em que deixava para trás todo o conflito, a política interna, as matérias negativas e as cobranças de Barcelona, poderia soar como verdade.
“No Napoli, tudo ficou muito intenso. Havia um cameraman que o seguia a todos os lugares”, lembra Blanco que começou a presenciar, na Itália, uma mudança em Diego.
Uma das faces mais visíveis disso foi a saída de Cyterzpiller e a chegada de Guillermo Coppola, personagem que continuou próximo a Maradona durante o resto de sua vida, mesmo quando não era mais seu empresário. Antagonizou, enquanto isso, vários dos amigos antigos do jogador. Um deles foi Blanco. Ele não deseja falar sobre o agente que depois se manteria em evidência por contar histórias sobre o craque e a tentar fazer a audiência rir às custas de quem havia sido seu cliente.
Antes de se afastar, destino comum de quase todas as pessoas que foram próximas a Maradona, Blanco acompanhou, mesmo que de maneira informal, sem ser fazer mais parte do estafe, como o craque lidou com a Copa de 1986, torneio que levou sua mística para a estratosfera e lhe deu seus momentos mais icônicos. Mas o que espantou ao repórter e a outras pessoas com conhecimento dos bastidores da vida do Dez era como ele conseguia compartimentar sentimentos. Era capaz de se concentrar no futebol e isolar todo o resto.
Toda segunda-feira, saía de Nápoles e ia a Roma para consultas médicas e se preparar para o Mundial no México, nos meses antes da viagem. Foi quando Blanco e Signorini perceberam um sinal que se tornaria famoso na história do jogador. Quando ele não estava bem de cabeça, não se barbeava. A barba semicerrada no rosto de Maradona significava problema. Era o preparador quem lhe levantava o moral.
“É curioso porque, para todos, o pico de Maradona acontece em 1986 e 1987. Mas ele caía antes de chegar a esse cume. Achavam que ele estava subindo, mas já estava baixando”, avalia Blanco.
O jornalista pensa de forma demorada antes de tentar definir a personalidade de Diego. Ele viu várias fases e presenciou a transformação ocorrida através dos anos. É uma lembrança que começa no momento em que se encontraram pela primeira vez, no torneio Evita, nas cercanias de Buenos Aires, e termina ao saber da notícia de sua morte.
“O ser humano tem dentro de si milhares de facetas que formam o desenho humano. Formamos isso pela nossa educação, cultura, pela nossa maneira de ser. Às vezes somos bons, às vezes somos miseráveis. Diego também era sim, mas com tudo elevado à enésima potência. Quando chegou a Nápoles, a vida dele se tornou totalmente turbulenta. Começou a loucura que duraria até este 25 de novembro de 2020.”
“O senhor conseguiria definir Diego Armando Maradona?”, perguntou o autor.
Para Blanco, Diego Armando Maradona, seu entrevistado, cliente, amigo e ídolo é como Victor Hugo Morales definira: um barrilete.
“Diego foi um menino de Fiorito que um dia teve a ideia de ser um cometa. Com cola e papel fez um barrilete e o fez subir. Mas é uma pipa que sobe tanto que ele perde o controle. Vai tão para o alto e vem tão para baixo que ele toca o céu e o inferno. Há mais ou menos um mês, esse barrilete começa a cair, todo desmembrado. Até que foi ao chão em La Plata. Uma pipa que cai perto de Tigre, sua última casa, um lugar que é, ao mesmo tempo, perto do estádio do Gimnasia e perto de Fiorito. É isso.”
Seria um bom início para um livro sobre Maradona. Ele ri com tristeza ao ser lembrado de que poucos poderiam escrever tão bem sobre o máximo ídolo argentino.
Quantos conviveram por tanto tempo com D10s?
Guillermo Blanco não consegue escrever sobre Diego. Não que não tenha tentado. Mas afirma não saber como.
“Há muita gente que diz tê-lo conhecido. Se conheci ou não, é algo relativo. Sou um fracasso como jornalista porque há algo que me impede de escrever sobre ele. Mas o levo no coração por tudo que o vi fazer na vida.”
Mas Blanco escreveu uma obra sobre Diego, enquanto ele ainda era vivo. Foi publicada em italiano, para aproveitar o fanatismo napolitano. Chama-se “L’uomo, il mito, il campione”.
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O capítulo 12 será publicado em 4 de março.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com



Ótimo texto. Já despertou o meu interesse.
Diego Armando Maradona era genial.