Capítulo 1
Quarta-feira, 25 de novembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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“A mi dicen que Diego no resistió.”
Eu havia entendido a frase dita pelo repórter Fede Bueno, da ESPN Argentina. Mas parecia tão surreal que preferi duvidar do meu domínio do castelhano. Ele não deve ter falado aquilo. Talvez o sentido fosse diferente. Eu havia escutado errado, claro. O jornalista logo em seguida explicaria o significado real e seria outra coisa. Eu me levantaria do sofá decidido a estudar espanhol para não passar mais sustos como aquele.
Diego Armando Maradona não era imortal (e acabo de me tornar o Conselheiro Acácio do jornalismo esportivo com essa observação), mas todos sabiam haver algo de errado. Eu estava em Buenos Aires em março de 2020 quando ele foi quase carregado para o banco de reservas de La Bombonera antes da partida do seu Gimnasia y Esgrima La Plata contra o ainda mais seu Boca Juniors. A cena deprimente daquele homem que conquistou o mundo e mal conseguia caminhar sozinho pelo campo que considerava sua casa poderia ser confundida com a emoção. Muita gente acreditou naquilo, inclusive para justificar os remédios que lhe deram. O argumento era que se não estivesse “medicado” daquela forma talvez seu coração não resistisse. A imagem que ficou foi a de um mito inchado, com as pernas curvadas e fora da realidade, um totem a ser idolatrado por milhões. A realidade era que Maradona agonizava diante de todos, mas se alguém sabia ou suspeitava, fechou os olhos. A imprensa queria ouvir mais uma declaração dele, pessoas do seu “entorno” desejavam arrumar uma forma de mantê-lo como uma máquina de fazer dinheiro e seus admiradores pensavam apenas em demonstrar um amor inédito no mundo do futebol.
Desde que minutos antes eu havia ligado meu sistema pirata IPTV para ver o noticiário esportivo na Argentina (sim, é uma contravenção. Prendam-me), permanecia imóvel. A mensagem nos caracteres do programa de TV era que Diego havia se “descompensado”. Não soava grave, mas nada parecia simples quando envolvia aquele personagem. Para quem havia passado mal logo após completar 60 anos, internado, operado e levado para descansar em um condomínio fechado, o fato de haver uma notícia, qualquer que fosse, não era bom sinal.
Freud poderia explicar, embora duvido que fosse perder tempo com isso, mas lembrei da morte de Tancredo Neves em 1985. Primeiro presidente civil eleito no Brasil depois de 25 anos, foi internado um dia antes de tomar posse. Explico isso caso você tenha gambeteado os livros de história como se fosse Maradona a deixar para trás seus marcadores. O político ficou no hospital por mais de um mês e morreu pelo menos oito horas antes do anúncio oficial, na noite de 21 de abril. Foi divulgado boletim de que o quadro era irreversível antes disso, como a preparar os ânimos. A confirmação, quando veio, foi um choque. Mesmo para um menino de 10 anos, como eu.
Talvez tenha me recordado disso para imaginar que Diego não morreria assim, de uma hora para outra. Haveria um aviso prévio.
A gente pensa em cada bobagem…
Queria acreditar que ele, maior do que a vida, sairia dela aos poucos. Ficaria doente, depois internado e as informações seriam dadas no decorrer de dias, cada vez mais sombrias, até o final inevitável.
O “descompensou” passou para “parada cardíaca” poucos minutos depois. As três ambulâncias na porta do condomínio se tornaram seis. Considerei, dentro do meu enorme conhecimento de medicina, somente inferior à minha fluência na língua espanhola, que se ele teve um enfarto, seria reanimado pelos médicos (eram seis ambulâncias!) e levado para o hospital. Não acabaria assim, de uma hora para a outra. Não fazia sentido.
Apesar de toda essa lógica, irrefutável na minha cabeça, havia aquele “Diego não resistiu” na voz de Fede Bueno. Não eram apenas as palavras que chocavam, mas o tom quase de súplica na voz, um apelo para que não fosse verdade. Não posso nem imaginar o medo sentido por um jornalista de dar informação como aquela errada. Hesitante, ele chegou a implorar a ajuda aos colegas de emissora, em um misto de pedido de desculpas pelo que ia dizer e um SOS para ter auxílio em apuração que, naquele momento, estava apenas com ele e o peso sobre seus ombros devia ser gigantesco.
“A mi dicen que Diego no resistió”, repetiu, alguns segundos após a primeira vez.
A incredulidade não era apenas minha. Os integrantes do programa ficaram sem saber o que dizer. Alguns se levantaram e saíram do estúdio para falar ao telefone. Eu estava com o meu aparelho na mão, pronto para enviar o alerta. A reação deles parecia ser fotocópia da minha: “esse ‘não resistiu’ quer dizer o que eu acho que quer dizer?”
“A mi confirman que Diego falleció”, veio a mesma voz 20 segundos mais tarde.
Minha única reação foi abrir o WhatsApp e mandar mensagem para o grupo da editoria de esporte da Folha de S.Paulo:
“ESPN Argentina diz que Maradona morreu.”
Na ínfima possibilidade de ser mentira, deixava bem claro: a informação era da emissora, não minha. Mais ou menos como os veículos de notícia que copiam algo publicado em outro lugar, mas não querem se comprometer e finalizam o título com “diz jornal.”
“Todos parem o que estão fazendo, por favor”, foi o pedido do editor Daniel Castro aos repórteres.
Aquilo significava o início de uma cobertura grande, a mais importante do dia não apenas no esporte, mas em todas as editorias. Diego Maradona estava prestes a mostrar o tamanho do seu legado mesmo no país que não o considera o maior jogador da história. Também deixava para trás, mesmo que por alguns dias, a discussão entre os defensores de Edson Arantes do Nascimento com o seu personagem Pelé e os fanáticos de Diego Armando Maradona com seu alter ego de mesmo sobrenome.
Depois de enviar o aviso, a primeira coisa que pensei foi em conversa de oito meses antes, na capital argentina, com Ezequiel Fernández Moores e Bruno Rodrigues sobre o que aconteceria na Argentina se Maradona morresse. Usei “se” na época, não “quando” porque… E se ele fosse imortal mesmo?
“O jornalista que vier para cá vai ter de passar um mês na Argentina para acompanhar tudo. Será um evento de primeira grandeza. Esportivo, social e cultural”, opinei. Eles concordaram.
Trinta dias poderia soar como exagero, embora desconfiasse que o legado dele futebolístico, emocional e material permaneceria por um longo tempo após a sua morte. Eu estava certo, mas a constatação não é motivo de orgulho. Era óbvia para qualquer um com mínimo de conhecimento da vida de Diego. Se um mês poderia parecer muito, sete dias deveriam ser o mínimo.
As imagens e discussões na TV continuavam e as notas nos sites de notícias se sucediam, mas era difícil prestar atenção em tudo aquilo. O que era possível fazer? Como um brasileiro poderia descrever a morte do maior ídolo argentino e ser fiel ao que ele foi, a tudo o que realizou de genial e a todos os tropeços? E um ídolo que eu jamais tinha sequer entrevistado.
“Eu nunca entrevistei Muhammad Ali. Mas isso não me impediu de escrever sobre ele. Acho que a pessoa sobre quem mais li na minha vida foi Ali”, havia me dito Ezequiel na charla de março de 2020. Eu havia lido muito sobre Maradona. A história do gênio que esteve no topo do mundo, foi ao chão e se reergueu (para fazer descrição bem rudimentar) me fascinava, especialmente em como ele era visto pelo seu povo.
Havia a desolação pela perda. É triste quando os ídolos morrem e Diego Maradona sempre foi o mais humano dos mitos do esporte. O mais sujo dos deuses, como definiu Eduardo Galeano. Alguém que jamais se encaixaria no modelo do jogador isento pelo medo de perder seguidores em redes sociais e desagradar patrocinadores. Não que o argentino fosse imune à influência do dinheiro. Colocou seu nome em um livro sobre a Copa de 1986 dedicado a um sheik dos Emirados Árabes. Mas é o capitão e craque mundial que esperou a câmera chegar até ele apenas para que o mundo o visse chamar de “filhos da puta” os italianos que vaiavam o hino do seu país.
Diego adoraria ser comparado a Gardel, mas sua história era mais parecida com a de outro gênio que sempre despertou minha atenção. Ele foi como Frank Sinatra. Alguém que apareceu como um cometa (outros prefeririam barrilete), caiu até parecer estar acabado e ressurgiu para ser ainda maior do que havia sido antes. Não há registros da categoria de Sinatra com a bola nos pés, mas Maradona cantava bem.
Nem sei o motivo para pensar tudo isso quando deveria focar no que acontecia naquele momento. A verdade é que eu estava desesperado para ir a Buenos Aires. Quem não deseja ver a história acontecer e poder contá-la do seu jeito? Vai além da curiosidade. É um pouco de vaidade e prepotência também, de achar ter o poder de fazer melhor do que os outros. Mas se pensar assim é errado, eu não quero o que é certo.
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(Segunda parte deste capítulo será publicada em 5 de dezembro)
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