Capítulo 2
Mais solitário do que Adão no Dia das Mães
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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Uma das histórias mais divertidas contadas por Daniel Arcucci, ghost writer de duas autobiografias de Maradona, é sobre um passeio pela Suíça antes da Copa do Mundo de 1990. A região era linda. As montanhas de cumes nevados (apesar do verão europeu), as ruas limpas, as pequenas casas com arquitetura semelhante e o aspecto de ordem encantaram Diego, que comentou a admiração ao jornalista.
“Você viveria aqui?”, perguntou o então repórter da revista El Gráfico.
Maradona arregalou os olhos.
“Está louco? Me mataria em dois dias!”
O jogador havia adorado uma viagem a Chicago, apesar de os Estados Unidos serem seu país preferido para ataques verbais. Conseguia andar pelas ruas sem ser reconhecido. Ao fazer compra em uma loja, a vendedora perguntou de onde ele vinha. Permanecer incógnito era algo que não vivia desde os primeiros anos no Argentinos Juniors.
O sossego e o anonimato poderiam ser bons, mas não eram sua rotina. Maradona gostaria de ser um cidadão comum (ou mortal, diriam alguns) apenas até a página três. Quando estava só, logo se incomodava. Uma das melhores frases de “Yo soy el Diego de la gente”, o livro escrito com a ajuda de Arcucci e Ernesto Cherquis Bialo, é quando ele reclama se sentir “mais solitário do que Adão no Dia das Mães”.
Acostumado a ter sempre amigos, bajuladores (ou ambos) a seu dispor, Diego Armando Maradona morreu sozinho e infeliz em uma casa que detestou desde o primeiro momento em que colocou os pés nela. Ao receber alta após cirurgia para retirar hematoma subdural na cabeça, foi levado para longe de tudo. Alugada pelo seu advogado e factotum Matías Morla, que se tornaria espécie de inimigo público da Argentina a partir de 26 de novembro de 2020, a mansão ficava no bairro privado de San Andrés, no country Villa Nueva, em Tigre, região norte da Grande Buenos Aires.
A ideia era que ele usasse a residência afastada da capital para se recuperar com tranquilidade. Esta foi a versão pública. Também serviria para rechaçar o desejo das filhas de que o ex-jogador fosse levado para uma clínica de reabilitação. Em 1º de novembro, um dia depois de completar 60 anos, Maradona havia passado mal. Levado para o hospital após reclamar de dores pelo corpo e com confusão mental, recebeu diagnóstico do hematoma que o colocou na mesa de cirurgia. Ninguém soube explicar a origem da lesão. A alta hospitalar, assinada pela psiquiatra Agustina Cosachov, determinava uma internação domiciliar. Em áudios depois revelados pelo site Infobae, Morla pediu para o neurocirurgião Leopoldo Luque não recomendar à família a transferência para a clínica. O temor era perder controle sobre a vida de Diego.
Dias após a morte, foi aberto inquérito para investigar as causas. Luque, Cosachov e outras cinco pessoas foram levadas a julgamento por homicídio culposo e entraram para a lista de párias da nação.
Os termos da internação em San Andrés não foram respeitados. Maradona não tinha acesso a um alarme para pedir ajuda. Não havia desfibrilador, tanque de oxigênio ou soro. Não foram feitos exames considerados imprescindíveis, como os de enzimas, que poderiam identificar problemas cardíacos. Não estavam disponíveis comprimidos para o coração (ele era paciente com histórico). A casa alugada possuía quatro quartos com banheiros privativos, mas todos se localizavam no piso superior.
Maradona não tinha forças para subir e descer escadas. Foi improvisado aposento para ele em uma sala de jogos. Nos seus últimos dias, o treinador do Gimnasia y Esgrima La Plata, que adorava ir a campo com um anel avaliado em US$ 300 mil no dedo anelar da mão direita, foi obrigado a fazer suas necessidades fisiológicas em banheiro químico. Seu sobrinho Jonathan Esposito, Maximiliano Pomargo (cunhado de Morla) ou um dos enfermeiros lhe davam banho de mangueira.
Junta médica que analisou o caso concluiu que Diego começou a falecer 12 horas antes de o fato de ser consumado. Ele foi abandonado à própria sorte.
“Se você visse onde seu amigo morreu, iria querer morrer também”, disse Claudia Villafañe, ex-mulher de Maradona, para Oscar Ruggeri, companheiro do 10 nas Copas de 1986, 1990 e 1994.
A última pessoa a ter contato com Diego foi Esposito. O filho de Maria Rosa, irmã do campeão mundial, falou com o parente às 23 horas de 24 de novembro e lhe entregou a medicação da noite. Em depoimento para os promotores, dias depois, afirmou que o tio se recusou a tomá-la. Não havia sido a primeira vez.
“Se Diego acordasse às nove da manhã e pedisse uma cerveja, lhe davam”, testemunharia Griselda Morel, psicopedagoga de Diego Fernando, filho de Maradona com Veronica Ojeda. Apesar de separados, o casal costumava se ver, em um exemplo da complexa relação dele com as ex-mulheres.
De acordo com pessoas ouvidas para este livro, o consumo de álcool era motivo para brigas e períodos de afastamento entre Maradona e as filhas Dalma e Giannina, frutos do casamento com Claudia. Se elas o vissem com copo de vinho ou cerveja, tiravam de suas mãos. Diziam terem enfrentado e superado a época da cocaína e era hora de parar com a bebida. Acostumado a ter todas as vontades atendidas, Diego se irritava. Ele morreu em litígio com a ex-mulher, a quem acusava de tê-lo roubado. As garotas ficaram do lado da mãe.
Enfermeiro identificado apenas como Ricardo contou aos promotores ter entrado nos aposentos de Maradona às 6h30 da manhã do dia 25, minutos antes de ir embora. Mediu-lhe os sinais vitais. Estavam normais. Gisela Madrid, encarregada de substituí-lo, ouviu barulho vindo do quarto às 7h30 e pensou que o paciente acordara, mas depois tudo ficou silencioso de novo. Questionada pela empresa Medidom, para a qual trabalhava e que havia sido contratada para fornecer o serviço de enfermagem na casa, declarou ter desejado medir a temperatura e a pressão de Maradona, mas não se aproximou dele porque a ordem dada era deixá-lo descansar. Se Diego não repousasse, ninguém mais dormia e essa era uma preocupação de quem vivia na mansão.
Morel disse aos promotores ter ouvido Milagros Rodríguez, a Monona, cozinheira da casa, comentar que Esposito ou Pomargo amassavam tranquilizantes e colocavam na cerveja para se certificar de que Maradona pegaria no sono.
Por causa da determinação de não incomodar, o sobrinho deixou também de lhe dar o medicamento da manhã na hora certa. Esposito considerou que o melhor era esperar a chegada de Agustina Cosachov e do psicólogo Carlos Díaz, às 11h30. Durante o primeiro julgamento dos acusados pela morte de Maradona, Veronica Ojeda mostrou mensagens em que Cosachov insunuava ter feito sexo com o paciente.
Maradona costumava dizer jamais ter colocado um relógio para despertar porque sempre havia alguém para bater na porta e acordá-lo. No dia em que mais precisou, aquilo não aconteceu. Quando se deitou na noite anterior, Monona deixara sanduíches de miga ao lado da cama, para o caso dele sentir fome. A comida não foi tocada.
Cosachov e Díaz o chamaram, sem resposta. O mesmo para as batidas na porta. Ao entrarem, o psicólogo percebeu que o paciente não tinha sinais vitais. Começou o processo de tentar reanimá-lo. A psiquiatra mandou mensagem para Leopoldo Luque. As conversas do neurocirurgião com Cosachov e outros amigos no caminho até chegar a San Andrés, vazadas para a imprensa, não ajudaram sua imagem com a opinião pública argentina.
A ambulância foi chamada por Luque, avisado que o coração de Diego havia parado de bater. Foi feito telefonema para a Swiss Medical às 12h16. Ele forneceu o endereço e falou em “parada cardíaca” de um homem de 60 anos. Não citou o nome de Maradona. Matías Morla depois reclamaria de negligência porque o socorro teria demorado 30 minutos para chegar. Mas imagens das câmeras do condomínio mostraram a entrada da primeira ambulância às 12h28. Diego já era atendido por médico que estava no condomínio. Este solicitou que a polícia fosse acionada.
Autópsia constatou que a morte aconteceu por insuficiência cardíaca aguda gerada por edema no pulmão. Ele sofria de cardiomiopatia dilatada, doença que reduz a capacidade do músculo cardíaco de bombear sangue pelos ventrículos. O exame não detectou a presença de álcool ou qualquer outra droga no seu organismo.
Os médicos estimam que Diego Armando Maradona morreu por volta das 12 horas de 25 de novembro de 2020.
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O capítulo 3 será publicado em 16 de dezembro.
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