Capítulo 1 (parte 2)
Quarta-feira, 25 de novembro de 2020
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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“É verdade que o Maradona morreu? Coitado.”
Com um lenço na cabeça e passaporte na mão direita, a mulher falava com sotaque que pareceu árabe e se espantou com a confirmação da notícia naquela interminável fila do laboratório. Colocado de forma emergencial no terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, era ali que passageiros em potencial depositavam a esperança de conseguirem embarcar. O resultado do teste para a Covid-19 sairia em três horas.
Ela fez a pergunta porque me ouviu trocar mensagens de áudio com pessoas do jornal. A partir do momento em que a frase “acho que você vai para Buenos Aires” foi dita, o dia se tornou frenético. Havia a necessidade de esperar no aeroporto para ter um tubo de cotonete enfiado nas duas narinas, na garganta e rezar por um resultado negativo. Sair de Guarulhos e ir ao centro de São Paulo, à redação da Folha de S.Paulo recolher dinheiro, voucher de hotel e passagens. Escrever um texto, sozinho na editoria, com todos os outros repórteres e editores em home office, sobre o lugar de Diego no panteão de ídolos da Argentina. Só depois descansar, arrumar a mochila e viajar no dia seguinte.
Mochila, sim. Mala, não. Viajar é a segunda melhor coisa do mundo. A melhor é voar sem despachar bagagem.
Não era apenas preocupação com o tempo e tudo ainda por fazer. Eu não queria me desprender do que acontecia em Buenos Aires. Quando seria o velório? Onde? Até que horas? Qual a trajetória do cortejo? No meio da pandemia, como estavam as aglomerações na Praça de Maio e no Obelisco?
Eu havia feito o pedido para viajar no primeiro voo do dia seguinte, às 7 da manhã. Embarcaria apenas às 14h. Acreditava ter perdido com isso o controle da situação. Uma bobagem. Quem era eu naquela engrenagem? Ninguém. Nunca teria controle de nada. Se nem Diego era mais o dono da própria vida, não seria um jornalista brasileiro a ter qualquer influência nos acontecimentos após a morte daquele camisa 10.
A pergunta daquela mulher de idade avançada e talvez sem grande interesse no futebol era amostra da comoção causada por Maradona. A melhor capa saiu pouco depois, obra da France Football, com a manchete “Deus está morto”.
Na estimativa macabra de quem morreria primeiro, Pelé ou Maradona, estar presente como repórter na morte do argentino sempre me interessou mais. Ao tocar o céu com os dedos ou mergulhar no inferno, teve o incessante amor da sua gente. O brasileiro nunca se preocupou em defender Pelé. Muitas vezes o criticou. Era uma relação mais humana, adulta. Claro que ambos têm defeitos.
Essa humanidade costuma se tornar indiferença, a não ser quando alguém diz ser Maradona o maior da história. É quando o brasileiro veste a armadura de defensor de Pelé, o mesmo que foi vaiado em uma prova do GP Brasil de F1 após a morte de Sandra Regina, a filha reconhecida por ele apenas na Justiça.
Diego teve um filho fora do casamento e o aceitou apenas nos tribunais. Morreu enfrentando outros processos de paternidade. Jamais foi criticado pelos seus compatriotas por causa disso. Deveria, mas este livro não é tese sociológica ou exame de moral.
Pelé tem uma música cantada por torcedores nos jogos da seleção. Apenas uma. Lembra ter sido ele o único a fazer mil gols. Nasceu como resposta ao “Brasil, decime que se siente”, que se tornou o maior hit da Copa do Mundo de 2014. A letra termina com a frase de que “Maradona é maior do que Pelé.”
O brasileiro sempre foi um homem do sistema. Ministro de Estado, uma espécie de representante da frase “se hay gobierno, soy a favor”, garoto-propaganda de sucesso, requisitado e mais identificado com a direita política. Maradona vestiu, com o tempo, a carapuça do rebelde, perseguido e defensor dos mais humildes. Mas, ao mesmo tempo, foi amigo de Carlos Menem e Domingo Cavallo. Tudo isso com tatuagem de Che Guevara no ombro. Aliado de Chávez e Maduro, adorou morar sob as bençãos da família real em um país onde não existe democracia e respeito pelos direitos humanos. Pelé não jogou pela seleção a Copa de 1974. Preferiu entrar no gramado na partida de abertura vestido com terno que tinha o logotipo da Pepsi. Maradona atuou em todos os confrontos do Mundial de 1990 com tantas infiltrações no tornozelo que é espantoso não ter se locomovido em uma cadeira de rodas depois do torneio.
Diego jamais teve de carregar nos ombros o peso de ser ídolo negro em um país como o Brasil, com sua delirante ilusão de democracia racial. Pelé poderia ter contribuído mais para este debate, mas nunca foi a obrigação dele fazê-lo. Cada um tem o direito dar à vida a direção que achar melhor.
Juan Domingo Perón morreu oito meses antes do meu nascimento. Mesmo se tivesse sido depois, eu não estaria na Praça de Maio para gritar “se siente, se siente, Perón está presente”. O canto também seria entoado naquele 25 de novembro de 2020, mas com a troca de nome. Sai o presidente, entra Diego. O criador do peronismo domina ainda hoje o imaginário argentino na política e há peronistas jovens demais para terem vivido quando ele comandou o país. Da mesma forma, milhões que jamais viram Maradona jogar choraram sua morte.
Há a história de casas na Argentina em que não há campainha na porta. Os visitantes, para serem recebidos, só precisam gritar “viva Perón!”. Figura polarizadora, se foi amada por muitos, ainda é odiada na mesma proporção. Maradona poderia ter detratores (e quem não os têm?), mas estes seriam uma avassaladora minoria se comparados aos que o amavam. O futebol é muito mais popular do que a política e tem capacidade de emocionar e criar heróis.
Acompanhar o pós-morte dele seria presenciar o surgimento do maior mito da história de um país, era o meu palpite. Quantas chances há na vida para ser testemunha de algo assim? Por isso estava obcecado por viajar a Buenos Aires tão rapidamente quanto possível. Enquanto a multidão se acumulava na Praça de Maio e na Nove de Julho para homenageá-lo, a funcionária do laboratório pedia para eu preencher um formulário antes do exame.
Ezequiel Fernandez Moores lembrou, em texto para a Folha de S.Paulo, frase de Roberto Fontanarrossa de que não importa “o que Maradona fez com a vida dele. Eu me importo com o que ele fez com a minha”. Pensava nisso enquanto assistia, horas depois, na pirataria do IPTV, as imagens das pessoas em pé sobre carros ou trepadas em árvores para ver o cortejo com o cadáver passar pelas apertadas ruas da Paternal, ao lado do estádio do Argentinos Juniors e a poucos metros da sua primeira casa com banheiro interno, alugada pelo clube para o então garoto de 16 anos deixar Villa Fiorito.
“Diego no se murió, Diego no se murió, Diego vive en el pueblo la puta madre que lo parió”, cantava a multidão.
A transmissão duraria a noite toda e, a contragosto, eu tinha de dormir. Já na cama, procurei na internet o vídeo do “a mi dicen que Diego no resistió”. Talvez para ver se o choque perduraria mesmo horas depois. Ou porque aquele momento se transformara em cena histórica no segundo em que aconteceu. Prestei atenção por mais alguns minutos depois e percebi pela primeira vez a frase do narrador Sebastián “Pollo” Vignolo com a voz embargada, instantes após a confirmação da morte.
“Estamos aqui para falar de futebol. Mas o futebol morreu.”
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O capítulo 2 será publicado em 10 de dezembro.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com


