Capítulo 13
Sábado, 25 de junho de 2022
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Trata-se do material do livro “O futebol morreu” sobre a cobertura deste que vos escreve quando Diego Maradona morreu, em novembro de 2020.
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Aqui os links para os capítulos anteriores (para ler na ordem, caso queiram):
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As cadeiras foram enfileiradas na pequena da sala da casa onde um dia morou Diego Armando Maradona. O espaço ficou abarrotado e parte da audiência, quase toda com mais de 40 anos, ficou de pé. Alberto Pérez havia colocado um aparelho de televisão conectado à internet e preparado a exibição de um vídeo do YouTube.
Minutos antes da chegada dos convidados, foi testado o equipamento e o link. Repetidas vezes. Sorria satisfeito cada vez que funcionava.
“Por enquanto, tudo certo”, disse.
Com a sala cheia, ele pediu a palavra. Agradeceu a presença de todos e disse ter uma surpresa para o homenageado daquela tarde. Fez um sinal e surgiu a imagem de Maradona. O silêncio foi geral. De terno e gravata, diante de um piano, microfone na mão e olhos fechados, Diego cantava uma música antiga chamada “El sueño del pibe”.
A letra do tango havia sido escrita por Reinaldo Yiso para a melodia de Juan Puey. Fala da história do menino que rebebeu convite para fazer teste em um clube de futebol e sonha em ser craque.
“Mamita querida, ganaré dinero, seré un Baldonero, un Martino, un Boyé”, são os versos que citam Emilio Baldonedo, Rinaldo Martino e Mario Boyé, atacantes de Huracán, San Lorenzo e Boca Juniors.
“Diego sempre cantou e dançou muito bem. Cantar, ele cantava para se exibir. Mas adorava dançar”, constatou Careca.
E naqueles breves segundos, ele pode ter se sentido Gardel. Aquele vídeo não era exibido ali para que todos presenciassem os dotes artísticos de Maradona. Ele mudou as palavras.
“Mamita querida, ganaré dinero, seré un Maradona, un Kempes, un Olguín.”
A assistência riu, inclusive o homenageado, parado próximo à televisão. A ocasião festiva, no local que um dia foi a sala de estar de Maradona, era para o lançamento do livro “Olguín, una história para contar”, a biografia do ídolo do Argentinos Juniors, escrita pelo jornalista Ezequiel Suárez. Campeão do mundo em 1978, Jorge Olguín foi campeão por Bicho, Independiente e San Lorenzo. Mas foi pelo clube da Paternal que ganhou a Libertadores de 1985 e esteve muito perto do Mundial. Levou a Juventus de Michel Platini e Michael Laudrup ao limite em Tóquio até sucumbir nos pênaltis após empate em 2 a 2.
“Diego sempre generoso”, comentou o histórico volante.
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Ao contrário de novembro de 2020, há muito pouco movimento nas cercanias da estação Devoto. Era uma manhã fria de sábado em que mães, algumas com babás, levavam crianças em carrinhos para a Praça Arenales. Ninguém jogava bola. Nenhum taxista pediria para deixar o passageiro antes do destino final por causa da quantidade de pessoas. A caminhada pela Sanabria é quase deserta, o que parece estranho até mesmo para uma região de elite como aquela.
Na Habana, o mesmo. Algumas pessoas de mais idade andavam pelas ruas como se estivessem em um treino funcional. O ritmo era lento, mas bufavam de cansaço, com calça de moletom de marca e agasalho que cortava o vento. Um grupo de moças mais jovens corria, expressão concentrada. Nada daquilo parecia ter qualquer ligação com Diego Maradona. A vida havia seguido para todos, mas mais ainda na Villa Devoto.
“Algumas pessoas ainda aparecem por aqui por causa dele e perguntam onde morava. Eu aponto, mas aviso para não tocarem o interfone. Os moradores andam irritados com isso”, avisa José, funcionário de prédio na Sanabria, uma quadra antes do Segurola y Habana 4310.
Na esquina, as homenagens eram percebidas porque a esquina havia sido rebatizada como Diego Maradona. Placas foram trocadas para o nome e sobre nome do ídolo. Adesivos, faixas, cartas, camisas e imagens do 10 continuavam por ali. Mas não havia ninguém parado a olhar para cima para ver onde era o sétimo piso que ele havia feito famoso em rede nacional.
A entrada do prédio, a poucos metros da porta de acesso, não tinha mais restos de cera das velas que se desgastaram. Curiosos não colavam a cara no vidro para tentar enxergar quem estava lá dentro.
“Aquela febre acabou. Graças a Deus, não é? Eu adorava Diego, ele era um morador barulhento de vez em quando, mas gostava muito dele. Era educado demais e sempre tratava todos bem, especialmente as crianças. Mas quando morreu, aquele alvoroço todo durou mais de um mês. Os moradores estavam cansados”, disse uma senhora que aparentava mais de 70 anos, acompanhada da filha, saindo do edifício.
Elas não quiseram dar o nome porque, como disseram, a celeuma iniciada em 25 de novembro de 2020 havia acabado.
Que a moradora não me leia (e, com certeza, não lerá), mas não era triste ter acabado? Com certeza, Maradona não havia sido esquecido e nunca será enquanto houver um enamorado de futebol no mundo, mas não seria justo manter aquela chama viva na Segurola y Habana, como um símbolo? Não todos os dias, mas uma vez a cada mês? Era pedir demais?
Claro que era.
Meu pensamento estava ainda naquela tarde de novembro pós-morte, quando Segurola y Habana foi uma das sedes do movimento Maradona.
Não havia muito ali para ver depois de alguns minutos. A não ser por uma placa na esquina e as lembranças na sinalização das ruas, restava bem pouco.
O único barulho vinha de uma obra de prédio em construção. Dois operários estavam na entrada. Um deles acendeu cigarro, em silêncio.
“Eu vi uma loira saindo um dia do prédio. Acho que era Claudia”, disse o que não fumava, quando questionado pelo autor sobre a fama da esquina que estava a poucos metros. O que fumava quase engoliu o cigarro.
“Deixa de piada! Você viu Claudia, ex-mulher de Maradona?”
“Estou te dizendo! Para que vou mentir?”
“Para se fazer de importante. Eu estou na obra há mais tempo que você, fico mais horas e nunca vi ninguém que parecia ser da família de Maradona sair desse prédio.”
“Você está com inveja porque eu vi e você, não.”
Eu citei que Claudia Villafañe havia ido ao apartamento meses após a morte de Diego. Pelo menos era o que se falava.
“Não te disse?”, questionou um operário ao outro, como se aquela história fosse a confirmação de que ex-mulher de Maradona esteve presente no sétimo piso da esquina Segurola y Habana.
“Daqui a pouco você vai dizer que viu Diego saindo do prédio…”
“Não, mas quando ele teve a discussão com Toresani e falou de Segurola y Habana…”
“O quê? Vai dizer que você estava em La Bombonera?”
A impressão é que ele estava prestes a dizer que sim, mas percebeu que, pela idade, aquilo seria impossível.
“Não. Mas meu pai estava.”
Aquela reviravolta tirou toda a credibilidade de sua afirmação de ter visto Claudia Villafañe.
“Ao contrário de você, eu vi Diego jogar ao vivo”, se aproveitou o fumante e de mais idade.
“Eu vi tantos vídeos dele que é como se tivesse visto em carne e osso. E você esteve no velório na Casa Rosada? Eu estive”, rebateu o mais jovem, em uma discussão que se tornara quem tinha mais propriedade para falar a respeito de Diego Maradona.
“Qual seu momento preferido dele?”, questionei.
“O gol contra a Grécia em 1994.”
“Não consigo”, contestou o mais velho. “Impossível. Se eu escolhesse um instante apenas, um gol, desprezaria tudo o que ele representou.”
O rapaz, surpreendido pela resposta do companheiro, ficou pensativo. Não ousei me intrometer pela intuição de que a charla entre não havia terminado.
“Que pena ter morrido. Vi ontem vídeo de um gol de falta dele pelo Napoli, contra a Juventus.”
O outro jogou o cigarro no chão e pisou em cima para apagá-lo.
“Não seja idiota. Diego não está morto. Se você ontem o viu fazendo um gol de falta como pode dizer que ele morreu?”
*
A vida também havia voltado ao normal no centro de Buenos Aires, como não poderia deixar de ser. Diego Maradona se tornara parte da paisagem quase dois anos após sua morte, o que é algo excepcional. Menos de três anos depois do falecimento de Pelé, projeto de lei na Câmara dos Vereadores de Três Corações apreciou projeto para tirar o nome do seu filho mais ilustre do estádio municipal, de uma das avenidas mais importantes da cidade e de uma praça.
Santos pelo menos tenta se aproveitar da imagem do Rei de forma mais coordenada graças ao Museu Pelé. Usar a imagem do ex-jogador de forma comercial é algo mais complicado, já que, mesmo em vida, ele era uma empresa especializada em arrecadar dinheiro em ações de marketing. A marca do tricampeão mundial era valiosa. No caso de Maradona, mesmo em 2025, quando este livro é, enfim, finalizado, Matías Morla e as filhas de Diego brigam na justiça pelos direitos sobre a “patente” de tudo o que leva as digitais do ídolo.
“Maradona nunca se importou com dinheiro”, disse vendedor de loja de camisas piratas na Lavalle, quando escuta do autor comentário sobre o uso da marca de D1os.
Aquilo era uma mentira deslavada. Ele se importava e muito. Como qualquer um de nós. Várias das suas decisões profissionais foram tomadas por causa do salário oferecido. Ou é possível imaginar que seu sonho da vida era ser técnico nos Emirados Árabes? Mas quando ouviu que ambulantes de Nápoles vendiam uniformes de fundo de quintal com a sua imagem na época em que atuava pelo clube, respondeu ficar feliz por ajudar famílias a se sustentarem. Aquilo era melhor do que encher os bolsos de uma empresa milionária qualquer.
“Toda vez que penso em Maradona, o sentimento que tenho é de alegria por tudo o que me fez viver”, definiu Vitor Hugo Morales.
É a frase que resume o sentimento popular. Para o povo, ele continuava sendo a representação mais fiel do que é ser argentino. Por isso as imagens pichadas nas paredes mesmo de estádios que não tinham nada a ver com sua história futebolística, como o do All Boys, são sempre de um Maradona desafiador. O cabelo farto, a cara concentrada, o salto no ar para desviar a bola com o braço antes da chegada de Peter Shilton, a corrida com o peito estufado, a malícia, a picardia, a viveza.
“Si yo fuera Maradona, viviría como él”, estava escrito na parede de Mataderos, próximo à feira bem menos famosa e bem mais interessante que a de San Telmo, ao lado do rosto pintado do ídolo. Um detrator pichou ao lado “pedófilo”. A acusação foi logo apagada com tinta branca. Ainda assim, era possível lê-la.
Nem os pecados e crimes que pesavam sobre ele foram esquecidos após a morte. Como deve ser.
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A segunda parte do Capítulo 13 será publicada em 27 de março.
Lembrando que esta é uma obra copyleft, que você pode ler de graça e pagar o quanto e se achar que ela vale. O pix é sabinoalex1975@gmail.com
